Começo saudável
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de outubro de 2000
Celso Mattos 
Qualquer pessoa com mais de 30 anos sabe como é brincar de peteca, amarelinha, bolinha de gude e bambolê. Afinal, essas brincadeiras eram muito comuns no passado. Mas com a popularização da televisão, do videogame e, mais recentemente, do computador, são poucas as crianças que sabem como é brincar de esconde-esconde ou de cabra-cega. Com isso, elas estão se movimentando menos, o que pode representar riscos para o desenvolvimento neuropsicomotor da criança.
Preocupadas com esse problema, as fonoaudiólogas Lívia Fortes e Andréa Oliveira Batista estão desenvolvendo desde 96, o Programa de Assessoria Fonoaudiológica às Escolas, que trabalha com capacitação de professores e orientação aos pais para prevenir distúrbios de aprendizagem. Segundo Andréa Batista, a criança nasce com células alvas cerebrais (neurônios). Através de brincadeiras e atividades como trocar de roupa, comer e tomar banho sozinha, essas células alvas vão se especializando.
Em crianças que ficam muito tempo paradas em frente à televisão ou que ficam presas em chiqueirinho ou andador, o potencial de desenvolvimento dessas células é pouco estimulado, informa a fonoaudióloga. Lívia Fortes acrescenta que isso pode acarretar problemas de equilíbrio, ritmo, letra feia, além de dificuldade de direção, memorização, raciocínio e linguagem.
Estímulo Ela explica que a criança nasce com áreas determinadas para cada função específica do ser humano como, por exemplo, andar, escrever e o sentido de direção. Essas áreas precisam ser estimuladas por vivências corporais e do meio, e isso cabe aos pais e professores, afirma. Andréa Batista ressalta que esse estímulo deve começar desde o nascimento, mas respeitando o desenvolvimento natural da criança (ver box).
A fonoaudióloga não recomemenda, em hipótese nenhuma, o uso de andadores e chiqueirinhos. O andador força a criança a andar antes do tempo, muitas vezes fazendo-o ficar na pontinha dos pés, o que não faz bem para seu desenvolvimento esquelético. Já o chiqueirinho priva o bebê de explorar o ambiente, desenvolver seu pensamento abstrato do mundo. Criança tem que engatinhar, rolar no chão e dar cambalhotas, isso faz parte de seu crescimento natural, diz Andréa Batista.
Lívia Fortes reconhece que, atualmente, a maioria das mães trabalha fora e nem sempre pode ficar atenta a tudo. Entretanto, os pais podem compensar isso nos finais de semana, levando os filhos para brincar em parques, chácaras e praças, onde eles possam exercer melhor sua infância. Ela lembra que existem crianças que moram em casa térrea, mas não usam o quintal para brincar, ficando o tempo todo em frente à televisão, videogame ou computador.
A recomendação é que os pais resgatem as brincadeiras da infância deles, repassando-as para os filhos. Isso vai ajudar muito no desenvolvimento da criança, diminuindo distúrbios de linguagem, coordenação motora, entre outros, garante Lívia Fortes.


