Com ciúme do irmãozinho
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sexta-feira, 18 de novembro de 2005
Margarete Rapussi<br> Agência Estado 
Nem sempre a chegada do segundo filho é encarada com a devida alegria e receptividade por todos os membros da família. O problema acontece quando o até então filho único percebe que o universo que girava exclusivamente ao seu redor terá de ser partilhado com um ''estranho''. Como os preparativos que antecedem a chegada do bebê duram alguns meses, neste período a criança já pode começar a demonstrar ciúme de formas variadas. Mas não há, segundo especialistas, motivos para alarde. Um irmão é alguém com quem a criança terá que disputar a atenção dos pais, dos parentes, brinquedos e até seu espaço físico no lar. O ciúme é uma reação emocional normal da criança, e cabe aos pais contorná-la com muito diálogo, paciência e compreensão.
De acordo com os especialistas, o ciúme é mais frequente por volta dos 4 anos. ''Nesta idade, a criança começa a perceber os 'outros' como rivais. É possível que o ciúme seja manifestado antes dos 4 anos, mas é especialmente nesta idade que a emoção toma forma e promove situações delicadas e, às vezes, duradouras'', explica Teresa Artola González, doutora em Psicologia pela Universidade de Madri (Espanha).
Autora do livro ''Como Resolver Situações Cotidianas de Seus Filhos de 0 a 6 Anos'', Teresa desenvolveu amplo trabalho de pesquisa no campo da psicologia infantil durante mais de dez anos. Ela revela que através do ciúme a criança está reclamando atenção dos pais.
A criança ciumenta costuma apresentar condutas regressivas como, por exemplo, voltar a fazer xixi na cama, chupar dedo ou chupeta, não querer comer sozinha e até mesmo utilizar um tom de voz mais infantil. São condutas que têm o único objetivo de chamar atenção dos pais, tios e avós. Teresa destaca que o ciúme também pode acontecer de um irmão menor para seu irmão maior. ''Isso ocorre com frequência quando o menor vê em seu irmão mais velho um rival que sempre faz tudo melhor que ele. Ou que seu irmão tem alguns 'privilégios' que são negados a ele.'' Diante dessa situação, continua a psicóloga, o filho mais jovem pode agarrar-se ainda mais à sua mãe e comportar-se como se não quisesse crescer ou proceder de forma agressiva e invejosa. Além disso, adotar uma postura ao longo de sua vida de sempre tentar superar aos demais em todas as atividades e relacionamentos.
Apontar as vantagens e os benefícios de ser o mais velho, atribuir responsabilidades e, ao mesmo tempo, esclarecer como o bebezinho é dependente. Foi o que fez Dulcenéa Regina Folquito Padovan, 40 anos, assim que nasceu a filha, Sofia, em 2004. ''Mostrei para o Giovane, de 6 anos, que a irmãzinha gostava e precisava dele'', lembra.
Ela acredita que com esta maneira carinhosa de apresentar a filha recém-nascida ao irmão foi possível contornar eventuais crises de ciúmes entre os filhos. ''Não vou negar que ele estava ansioso antes do nascimento da irmã, mas em nenhum momento omiti que a Sofia iria chorar muito, que teria que trocar suas fraldas a toda hora, e que ainda demoraria um pouco até que pudessem brincar juntos.''
Dulcenéa, contudo, explicou a Giovane que sua ajuda seria importante quando a irmã chegasse. ''Parece que desta maneira ele se sentiu meio responsável pela irmãzinha'', conta. Entretanto, quando Sofia completou um aninho, a situação ficou mais complicada. ''A interação dela com o mundo dele passou a ser mais intensa, começou andar e mexer nos brinquedos do irmão, o que não acontecia antes. Mas nada que não pôde ser contornado com muito diálogo'', esclarece a mãe de Sofia.
A psicanalista Kátia Gandolpo ressalta que esta situação descrita por Dulcenéa é absolutamente natural. ''Os pais deverão ter uma sensibilidade especial para falar à criança sobre a chegada de um novo irmãozinho, principalmente em casos em que o pai ou a mãe já tiveram outro relacionamento e filhos.''
A psicanalista conta que é comum ser procurada por mães desesperadas, sem saber como lidar com pequenos rebeldes pela chegada de um irmão. ''A estas mães aflitas, esclareço que a resposta está dentro de casa. Os pais devem explicar ao filho que o mundo em que vive não pertence apenas a ele, que outras pessoas fazem parte deste universo, inclusive seu novo irmãozinho'', orienta.


