Com açúcar e com afeto
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quinta-feira, 24 de julho de 1997
Jossânia Navolar 
ReproduçãoA comida é importante, mas ela deveria servir apenas para nutrir o corpo de forma saudávelUma das coisas mais difíceis de se ver é uma festividade que não envolva alimentação. O comer é uma festa para o paladar, para o corpo e para os olhos. A comida, na maioria das culturas, simboliza exatamente isso: uma alegria. Um agrado para si mesmo ou para o outro. A idéia é que ela não nutre apenas o físico, mas também o emocional e o espiritual. O que não deixa de ser um grande equívoco.
A psicóloga Devanira Domingues lembra que esse engano é cultural e começa, geralmente, na infância, ainda no berço. Sem querer, as mães condicionam os filhos desde cedo a entender a comida como uma forma de compensação. A cada insatisfação da criança, a primeira atitude da mãe é verificar se ela está com fome e oferecer alguma coisa via oral (comida, chupeta, peito ou mamadeira) para animá-la. A comida é vista como uma forma eficaz, quase milagrosa, de agrado porque poderia resolver quase tudo, diz.
A psicóloga Devanira Domingues lembra que a importância da comida como uma forma de agrado é culturalSegundo Devanira, a impressão é que as pessoas não percebem que existem outras insatisfações que não apenas a fome. Às vezes a criança chora por um desconforto, por uma ausência e não por estar com fome. Porém, tendemos a relacionar tudo com comida. É aquela mania tão conhecida de oferecer um doce para uma criança para que ela pare de chorar, por ter caído ou por estar chateada. No futuro, essa criança será um adulto que diante de uma dificuldade emocional qualquer, buscará no alimento uma forma de agrado, de consolo, alerta.
Dessa maneira, parece até que a comida tem um poder mágico. Os indivíduos só reconhecem que ela não tem essa força milagrosa, quando aparecem problemas como obesidade e quando se percebe que a angústia e a ansiedade que se pretendia aplacar com o alimento continuam lá. Algumas vezes acompanhadas de uma insatisfação ainda maior, lembra Devanira.


