Ele já foi sinônimo de boa educação e indispensável no currículo das moças de famílias abastadas. Mas houve época em que o balé era malvisto, período em que as bailarinas eram confundidas com vedetes. Hoje, no entanto, continua com a aura dos tempos em que a dança clássica significava requinte e sofisticação, apesar de ter perdido espaço para as aulas de línguas e informática.
''Mesmo quando falamos de atividade física, as pessoas hoje preferem fazer musculação ou aulas de aeróbica nas academias. Se esquecem que a maioria dos adolescentes não poderia se submeter a essas práticas porque não tem o corpo preparado para isso. O balé perdeu espaço porque o leque de opções é muito grande'', diz a bailarina e professora de balé Yeda Marques Russo, que há 40 anos dá aulas da dança.
Mesmo assim alguns pais ainda preferem o balé e reconhecem nele vários benefícios. A professora e bailarina Ery Cláudia Abujamra afirma que muitas de suas alunas mais novas começam o curso por vontade dos pais. ''Eles querem que a filhas tenham uma boa postura, um corpo maleável. Algumas também vêm porque as mães tinham o sonho de ser bailarina e não conseguiram. Daí, elas transferem o sonho para as filhas'', comenta.
Essa história está sendo contada na nova novela das oito da Globo, 'Páginas da Vida'. A personagem da atriz Deborah Evelyn, Anna, obriga a filha Giselle, interpretada por Rachel de Queiroz, a frequentar as aulas de balé. A menina, que não gosta da dança, sofre com a imposição da mãe. ''O que acontece na televisão é um exagero. Hoje os pais aceitam as escolhas dos filhos e é muito raro encontrar casos como esse na vida real'', afirma o professor e coreógrafo Wagner Alvarenga.
''As nossas alunas vêm porque querem estar aqui, aprender os movimentos, se apresentar. Elas gostam e quando percebemos que a criança não se interessa pela dança, conversamos com os pais. Forçar nunca é recomendado'', completa Yeda. ''E a maioria das meninas acaba se encantando com as aulas e continua o curso. Cerca de 30% das que começam continuam as aulas por vários anos'', diz Ery Cláudia.
A dentista Renata Kirita Doi, 28 anos, é um exemplo da dedicação à dança. Ela começou as aulas para corrigir um problema de pé chato, quando tinha cinco anos de idade, e nunca mais parou. ''Eu amo balé e venho treinar sempre que posso. Com ele adquiri disciplina, fiz amizades, viajei para vários lugares. Quando não venho para a academia, sinto falta'', garante.
Para o coordenador da Escola Municipal de Dança de Londrina, Leonardo Ramos, o fato de o balé ter perdido seu posto elitista e obrigatório tem seu lado bom. ''A qualidade dos alunos melhorou porque só nos procura quem quer aprender de verdade. Hoje, quando os pais trazem seus filhos, é porque a criança quer e isso ajuda no trabalho'', diz.
Além da beleza dos movimentos e do glamour que ainda acompanham as apresentações, a professora Ery Cláudia lembra que essa dança clássica também pode ser usada como terapia e tratamento. ''Tenho alunas que vêm por indicação de fisioterapeutas, para corrigir problemas de postura e coluna. O balé também ajuda a melhorar a auto-estima. Cada vez que o aluno consegue fazer um movimento com perfeição, é uma conquista grande'', afirma.
E para alcançar a perfeição, é necessário muito treino e paciência. A professora Yeda Russo diz que a bailarina precisa se cuidar sempre. ''Ensinamos a não fumar, não beber, não dormir tarde. Porque é preciso estar bem no dia seguinte para conseguir dançar direito. O balé acaba influenciando na vida toda'', explica. ''Até os pais, que no começo acham o balé algo sem graça que não dá futuro para ninguém, quando vêem as apresentações das filhas ficam encantados'', comenta o coreógrafo Wagner Alvarenga.
A professora de história e bailarina Joyce Torrente Porto, 22 anos, faz balé desde os quatro anos e garante que a dedicação é fundamental sempre. ''O balé é um trabalho para mim, não um hobby. Mesmo trabalhando com outra coisa gosto de treinar sempre que posso. Se fico alguns dias sem vir, percebo que alguns movimentos se tornam tecnicamente mais difíceis. Mas os ganhos físicos estão sempre comigo. Minha postura é muito boa, me sinto bem com o meu corpo. Pretendo fazer balé para sempre'', diz.
Para atrair os novos alunos, acostumados com a agitação e rapidez da vida moderna, o balé também tem se transformado, segundo Ery Claúdia. ''Atualmente existe o balé contemporâneo, que permite mais liberdade de movimentos e mesmo o clássico não é tão chato como muitas pessoas pensam. As escolas estão buscando músicas menos tradicionais'', afirma.

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