Como grande diretor de cinema, ópera e teatro, Luchino Visconti foi o encenador da própria morte. Numa de suas últimas entrevistas, ele admitiu que pensava com freqüência no assunto. ‘‘A morte deve ser tão natural quanto a vida. Talvez seja até melhor’’, disse. Bruno Villien conta o que foi o último dia do mestre em seu livro ‘Visconti’. O cineasta, que sofrera um derrame enquanto filmava ‘Ludwig’, padecia há anos com problemas respiratórios e preso a uma cadeira de rodas.
  Quando concluía a montagem de ‘O Inocente’, que terminou sendo seu último filme – não chegou a vê-lo pronto –, pegou uma gripe. No dia 17 de março de 1976, há 30 anos, assistido pela irmã, Uberta, decidiu que estava cansado e não iria levantar-se. Pediu para ouvir ‘A Segunda Sinfonia’, de Brahms. Ouviu duas vezes e disse: ‘‘Adesso, basta’’ (Agora, chega). Virou-se para o lado e morreu.
  Há quase cem anos, no dia 2 de novembro de 1906, Visconti nasceu em Milão, na Via Salaria, na mansão pertencente à sua avó materna, Anna Erba, proprietária do império farmacêutico. O pai era um aristocrata, o conde de Modrone. Visconti teve uma criação indolente, no meio das artes, das letras e da criação de cavalos. Poderia ter sido um daqueles jovens que brincam de pular sobre os sofás, indiferentes ao próprio futuro. Começou a interessar-se pelo cinema aos 30 anos, quando sua amiga Coco Chanel lhe apresentou o diretor francês Jean Renoir.
  Ele antecipou o neo-realismo com ‘Obsessão’, deu ao movimento um de seus mais belos títulos (‘La Terra Trema’), mas também anunciou seu fim, com ‘Belíssima’ e ‘Senso - Sedução da Carne’. Com ‘‘Rocco e Seus Irmãos’’, em 1960, fez um filme que permanece um marco e uma referência para devotos de todo o mundo, que o cultuam como obra-prima absoluta. Seguiram-se novos clássicos – ‘O Leopardo’, ‘Vagas Estrelas da Ursa’. A trilogia alemã, formada por ‘Os Deuses Malditos’, ‘Morte em Veneza’ e ‘Ludwig – A Paixão de Um Rei’, é mais polêmica, mas forma um bloco de notável coerência.
  A cena do baile em ‘O Leopardo’, quando o príncipe Salinas (Burt Lancaster) dança com a burguesa Angelica e sela sua aceitação pela grande sociedade, é um desses momentos superiores da arte. Soma tudo o que Visconti aprendeu trabalhando com filmes, peças e óperas. ‘‘As coisas precisam mudar para ficar na mesma’’, diz o astuto Tancredi.
  De ‘Obsessão’ a ‘Rocco’, seu cinema desenha uma história do proletariado. Por maior que seja ‘Rocco’, o filme, sob certos aspectos, talvez tenha virado peça de museu. No desfecho, após a desintegração da família Parondi em Milão, o diretor põe o mais jovem dos irmãos na estrada, construindo para ele uma promessa de felicidade a partir da consciência de classe, que adquiriu com outro irmão, Ciro, operário da Alfa Romeo. Consciência de classe? Em 2006, em plena era da globalização? Visconti não viveu o suficiente para ver a transformação do mundo e a promessa dos ‘ismos’ virarem consumismo.

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