CirCuiTO FECHADO
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quinta-feira, 13 de julho de 2006
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Como grande diretor de cinema, ópera e teatro, Luchino Visconti foi o encenador da própria morte. Numa de suas últimas entrevistas, ele admitiu que pensava com freqüência no assunto. A morte deve ser tão natural quanto a vida. Talvez seja até melhor, disse. Bruno Villien conta o que foi o último dia do mestre em seu livro Visconti. O cineasta, que sofrera um derrame enquanto filmava Ludwig, padecia há anos com problemas respiratórios e preso a uma cadeira de rodas.
Quando concluía a montagem de O Inocente, que terminou sendo seu último filme não chegou a vê-lo pronto , pegou uma gripe. No dia 17 de março de 1976, há 30 anos, assistido pela irmã, Uberta, decidiu que estava cansado e não iria levantar-se. Pediu para ouvir A Segunda Sinfonia, de Brahms. Ouviu duas vezes e disse: Adesso, basta (Agora, chega). Virou-se para o lado e morreu.
Há quase cem anos, no dia 2 de novembro de 1906, Visconti nasceu em Milão, na Via Salaria, na mansão pertencente à sua avó materna, Anna Erba, proprietária do império farmacêutico. O pai era um aristocrata, o conde de Modrone. Visconti teve uma criação indolente, no meio das artes, das letras e da criação de cavalos. Poderia ter sido um daqueles jovens que brincam de pular sobre os sofás, indiferentes ao próprio futuro. Começou a interessar-se pelo cinema aos 30 anos, quando sua amiga Coco Chanel lhe apresentou o diretor francês Jean Renoir.
Ele antecipou o neo-realismo com Obsessão, deu ao movimento um de seus mais belos títulos (La Terra Trema), mas também anunciou seu fim, com Belíssima e Senso - Sedução da Carne. Com Rocco e Seus Irmãos, em 1960, fez um filme que permanece um marco e uma referência para devotos de todo o mundo, que o cultuam como obra-prima absoluta. Seguiram-se novos clássicos O Leopardo, Vagas Estrelas da Ursa. A trilogia alemã, formada por Os Deuses Malditos, Morte em Veneza e Ludwig A Paixão de Um Rei, é mais polêmica, mas forma um bloco de notável coerência.
A cena do baile em O Leopardo, quando o príncipe Salinas (Burt Lancaster) dança com a burguesa Angelica e sela sua aceitação pela grande sociedade, é um desses momentos superiores da arte. Soma tudo o que Visconti aprendeu trabalhando com filmes, peças e óperas. As coisas precisam mudar para ficar na mesma, diz o astuto Tancredi.
De Obsessão a Rocco, seu cinema desenha uma história do proletariado. Por maior que seja Rocco, o filme, sob certos aspectos, talvez tenha virado peça de museu. No desfecho, após a desintegração da família Parondi em Milão, o diretor põe o mais jovem dos irmãos na estrada, construindo para ele uma promessa de felicidade a partir da consciência de classe, que adquiriu com outro irmão, Ciro, operário da Alfa Romeo. Consciência de classe? Em 2006, em plena era da globalização? Visconti não viveu o suficiente para ver a transformação do mundo e a promessa dos ismos virarem consumismo.


