Circuito Fechado - 'Hiroshima, Meu Amor'
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quinta-feira, 07 de setembro de 2006
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Cheio de extras produzidos no Brasil, o DVD de 'Hiroshima, Meu Amor', que chegou semana passada a pontos-de-venda em todo o Brasil, antecipa-se como um dos grandes lançamentos do ano e um resgate indispensável para cinéfilos. Quando Alain Resnais realizou seu clássico, em 1959, no bojo da nouvelle vague - mas sem se identificar realmente com o movimento de renovação do cinema francês no fim dos anos 50, pois foi sempre um solitário, como outros grandes da produção da França - Jacques Tati e Robert Bresson -, o flash-back já havia sido incorporado à linguagem do cinema, sendo moeda corrente sempre que o passado irrompia na vida dos personagens retratados na tela.
David W. Griffith usou o flash-back em seu monumento fundador da linguagem - 'O Nascimento de Uma Nação', de 1915. Em 1941, 26 anos mais tarde, Orson Welles armou um quebra-cabeças para contar a história de 'Cidadão Kane', fazendo constantes remissões ao passado de Charles Foster Kane revisto por diferentes pessoas. Em 1952, Vincente Minnelli ratificou o procedimento dramático em 'Assim Estava Escrito'.
O espectador, qualquer um, não apenas os cinéfilos, mais ligados em experiências estéticas avançadas, entendiam quando o passado voltava nas narrativas, mas Hollywood, para facilitar a compreensão, muitas vezes usava recursos de cor ou pequenas distorções da imagem para diferenciar o tempo, ou os tempos. Foi quando surgiu Resnais.
'Hiroshima' foi seu primeiro longa, mas desde 1948 ele já vinha se exercitando no curta, tendo construído obras que se tornaram referências do formato como 'Van Gogh', 'Gauguin', 'Guernica', 'Les Statues Meurent Aussi', 'Nuit et Brouillard', 'Toute la Mémoire du Monde'. São obras de um grande diretor, mas é sempre importante a participação do produtor Anatole Dauman, que incitava Resnais a ousar. E aí Resnais foi convidado a fazer um longa sobre a bomba atômica.
Quando iniciou o projeto, Resnais empacou. Sentiu que repetia a estrutura narrativa de 'Noite e Neblina'. Chamou Marguerite Duras para assessorá-lo. Marguerite queria aprender a linguagem do cinema com o diretor que já era reconhecido como um grande técnico. Ele a exortava a fazer literatura. E saiu este filme raro,contando a história de uma francesa que encontra um japonês em Hiroshima e vai para a cama com ele. De manhã, um gesto do amante ocasional traz de volta a imagem de outro amante, um alemão, morto durante a 2 Grande Guerra, em Nevers, na França.
É impossível que 'Hiroshima, Meu Amor' tenha, para o espectador de 2006, o mesmo significado que tinha para quem descobriu o filme, há 47 anos. As experiências de linguagem de Resnais foram incorporadas ao cinemão e até à publicidade. Mas a força do filme permanece inalterada - a beleza da fotografia, da música, a inteligência da montagem. Tudo isso e as performances de Emmanuelle Riva e Okada.
Em ambos os filmes, o homem é sempre um sedutor que age como psicanalista, retirando, do fundo do inconsciente de mulheres frágeis - que Resnais filma como se fossem esculturas, humanizando-as pela voz - o mistério das histórias passadas. O diálogo de 'Hiroshima' é daqueles que o cinéfilo sabe de cor. ''Você não viu nada em Hiroshima, diz Okada na abertura. ''Sim, eu vi; os museus mostram tudo aos turistas'', responde Emmanuelle.
Rapidamente, o diretor mostra as imagens da destruição causada pela bomba em Hiroshima, há 61 anos, quando se produziu aquele calor de dez mil sóis. O que se segue é a história de amor, uma das mais belas do cinema. Os personagens não têm nome. Identificam-se, como as cidades, no desfecho. Isso também faz parte do fascínio imorredouro deste grande filme. A frase pode não ser nova, mas é perfeita - a idade cai bem nas obras que o tempo respeita.
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