São Paulo- Do trio que elevou o cinema japonês às alturas, Akira Kurosawa foi aquele que mais influências e admiradores arrebanhou no Ocidente. Diferentemente de Yasujiro Ozu e de Kenji Mizoguchi, poetas de uma identidade nipônica mais acentuada, Kurosawa popularizou-se pela ênfase épica de seus filmes, mas, sobretudo, por sua elaborada plástica visual, razão pela qual muitos de seus fãs o consideravam um ''artista''.
Esta mesma razão impede que seus filmes funcionem na TV, quando vistos em DVD por um espectador que não teve a oportunidade de admirá-los na tela do cinema. Mas a edição em DVD de 'Kagemusha A Sombra de um Samurai' não sai perdendo por esse detalhe, mesmo que não se trate de um pequeno detalhe.
Como em tantos filmes anteriores do mestre, 'Kagemusha' é uma ópera, uma sequência admirável de quadros encenados mas também um genuíno conto filosófico, e é este o aspecto que mantém o filme nas alturas, mesmo sendo visto em condições adversas.
O filme narra as peripécias de um sósia de um grande senhor feudal no século 16 japonês. Em meio às batalhas entre três clãs, para o controle total do território, o senhor Shingen Takeda é ferido de morte. Resta como alternativa a seus subordinados convocar o sósia, um simples ladrão, para ocupar seu lugar em imagem e, desta forma, convencer os inimigos de que o grande senhor permanece vivo e em combate.
Nesta troca, em que a potência deixa um espaço em branco que será ocupada por um fantasma, Kurosawa realiza uma reflexão sobre o poder e sua natureza, a guerra e suas desrazões, sobre a qual a natureza impera soberana e os homens vagam pelo mundo apenas como sombras de si mesmos. Distribuição Fox, R$ 24,90.
Ciúme e tragédia Assistir a 'Amar Foi Minha Ruína' equivale a uma visita profunda às fontes de nossas telenovelas, no que podem ter de melhor. em princípio, eis ali uma história de ciúme, de mulher tão ciumenta quanto bela (Gene Tierney). Em vez de explorar a psicologia, o diretor John Stahl investe na patologia: é a insânia pura e simples que guia seus gestos, sua total incapacidade de adequar-se àquilo que a sociedade pede (exige). E a bela Ellen é capaz de tudo que se possa imaginar por seu marido (Cornel Wilde). Por quê?, nos perguntamos. Ele a ama, nada justifica as atrocidades que ela comete. Mas aí está o que tem de exemplar este melô: o descompasso entre ato e necessidade, a inutilidade dos gestos que engendram a tragédia. Há algumas vilãs da TV que fazem lembrar essa grandeza, embora a extensão das novelas tenda a afrouxar a lógica das personagens. Distribuição Classicine, R$ (Inácio Araujo).
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