Francelino França

Reprodução‘‘Cantigas de Roda’’ (Um dia Alegre), de Paula Martyr, Editora Eko, R$ 17,80Uma roda se formava. De mãos dadas no círculo, as crianças compartilhavam alegria, afeto e aprovação dos amiguinhos. Era a hora de cirandar. Brincando, essas crianças tinham oportunidade de socialização, de conhecer a cultura do Brasil, cantando nas ruas e nos quintais. Mas é fato que cada vez mais as crianças conjugam menos o verbo cirandar.
As cantigas de roda, uma tradição oral antiquíssima, declina ano após ano nas brincadeiras infantis. Muitos motivos são apontados para esse desaparecimento, dentre eles o crescimento das cidades, que engoliu os grandes quintais; a violência urbana, que tirou as crianças das brincadeiras de rua. O modismo musical também sufocou a sobrevivência das cantigas de roda.

Reprodução‘‘As Melhores Cantigas de Roda’’, com a Turminha Peralta, (RGE Discos) R$ 15,90As cantigas têm histórias para contar. A canção ‘‘Peixe Vivo’’, por exemplo, se relaciona à lenda amazônica do boto que, no final da tarde, sai do rio e toma forma humana para beber, dançar e seduzir jovens solteiras. Assim, os filhos de mães solteiras dessas regiões são chamados de ‘‘filhos do boto’’.
Mas as canções de roda ainda resistem no interior do Brasil, em muitas escolas, na memória de muita gente. Esse tipo de tradição oral, segundo os antropólogos, fortalece os elos afetivos e culturais do País.
Uma forma de preservar essa tradição brasileira é através de livros e discos. A Editora Eko colocou no mercado o livro ‘‘Cantigas de Roda’’ (Um dia Alegre). As músicas estão facilmente codificadas num piano eletrônico, acoplado ao livro. Não há criança que não aprenda a cantar as belas canções do cancioneiro popular infantil. São apenas cinco cantigas cifradas: ‘‘Frere Jacques’’, ‘‘Eu sou Pobre’’, ‘‘Marcha Soldado’’, ‘‘Ciranda, Cirandinha’’ e ‘‘Pirulito que Bate Bate’’.
Em se tratando de música, o CD ‘‘As Melhores Cantigas de Roda’’ (Turminha Peralta) traz um coral infantil cantando e falando sobre as mais conhecidas cantigas de roda. Vale como registro porque a qualidade musical deixa um pouco a desejar. As vozes foram infantilizadas para ratificar que o disco é infantil. Certamente, muitas escolas e creches já possuem em seu acervo esse CD, que contém entre outras ‘‘Fui no Tororó’’, ‘‘Atirei o Pau no Gato’’, ‘‘Terezinha’’, ‘‘De Marr钒, ‘‘Samba Lel꒒, ‘‘Passa, Passa Gavião’’. Algumas músicas foram adaptadas por Jeca Tatu, personagem folclórico na música sertaneja.

Reprodução‘‘Brincadeiras de Roda, Estórias e Canções de Ninar’’, narração Elba Ramalho; canto: Coro infantil, Solange Maria, Antônio Carlos Nóbrega, (Gravadora Eldorado), R$ 11,90Hoje muitas cantigas de roda não são conhecidas. Principalmente as mais regionais. A pesquisadora Esther Pedreira Cerqueira recolheu, no interior da Bahia, dezenas de cantigas. Como era costureira, ela pedia sistematicamente às freguesas e ajudantes que reconstituíssem músicas do gênero. Assim recolheu muitas canções.
A Gravadora Eldorado selecionou algumas dessas pérolas garimpadas por Esther no CD ‘‘Brincadeiras de Roda’’, estórias e canções de Ninar. Elba Ramalho faz a narração das histórias das cantigas. Escrita musical de alto nível, o trabalho é fiel às melodias originais. A mais conhecida é a ‘‘Estória da Figueira’’, enredo que trata de uma madrasta que enterrou a menina no jardim.
A dupla de músicos Paulo Tatit e Sandra Peres coordena um projeto que reúne vários artistas com o objetivo de dar um ar novo às antigas cantigas. O objetivo maior da dupla, além do resgate musical, é intermediar o contato da criança com a música. Segundo os músicos, as cantigas estimulam a criança a ampliar sua capacidade de expressão.
* Agradecimentos: Capital Discos, Livraria Bom Livro

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