Cinturas estranguladas
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sexta-feira, 14 de novembro de 2003
Agência Estado 
Não sabe o que pôr numa noite de festa? Elementar: vista um espartilho com uma saia ou calça da mesma cor e certamente você fará sucesso. A milenar lingerie está de volta em coleções de grifes famosas como Jean Paul Gautier, Vivienne Westwood, Valentino, Roberto Cavalli, Dolce & Gabanna e Victoria's Secret. Celebridades contemporâneas, a exemplo de Madonna, Gillian Anderson e Nicole Kidman os ostentam em seus shows, filmes e videoclips. Não só elas, mas eles também. A começar pelos roqueiros David Bowie e Marilyn Manson, que têm aparecido em público com corseletes coloridos.
O apelo fashion dos espartilhos vem de longe. Seu nome deriva de esparto (uma gramínea cujas fibras são utilizadas na fabricação de cestos). Na Grécia de Sócrates e Platão, destinavam-se a ambos os sexos. A partir do Renascimento, tornaram-se peças íntimas essenciais das classes abastadas. Naqueles tempos, eram feitos de arames metálicos ou ossos de baleia, tinham inúmeros ilhoses e colchetes e possuíam um complicado sistema de ligas e prendedores de meias.
Vesti-los assemelhava-se a uma sessão de tortura medieval. Eram tão apertados que provocavam problemas físicos. Os médicos de então os viam com maus olhos e acenavam com sinistras estatísticas para combatê-los:
Alerta mortal ''Espero que o quadro a seguir, abra os olhos de mães, que na esperança de que suas filhas tenham um talhe acentuado, mortificam-nas desde pequeninas. A cada 100 moças que usam espartilho, 25 sucumbem a males do peito; 15 morrem logo depois do primeiro parto; 15 permanecem doentes; 15 tornam-se deformadas; 30, apenas, resistem, mas são afligidas, mais tarde, por indisposições mais ou menos graves'', prevenia o médico francês Auguste Debay.
O alerta pouco adiantou. O desejo de ser bonita falava mais alto e a mulher suportava o martírio. Que o diga Isabel da Áustria, a imperatriz Sissy. Para manter sua cinturinha de vespa, de 45 centímetros, ela resistiu ao desconforto provocado por seu espartilho e por pouco não morreu disso.
Além do sufoco, era preciso paciência e arte para enfiar-se num monstrengo daqueles. Em geral, as vítimas deitavam-se de barriga para baixo, enquanto alguém, com os pés plantados nas costas delas, apertava ao máximo os cordões do espartilho.
Uma cena do filme ''...E O Vento Levou'', em que uma mucama auxilia a atriz Vivian Leigh (no papel de Scarlet O'Hara) a vestir-se, ilustra bem o ritual, que durava cerca de uma hora. Gillian Anderson, a musa do ''Arquivo X'', também sentiu na pele o tormento.
''No começo, é uma chateação, você tem de aprender como respirar, sentar e ainda por cima dói. Mas depois você se acostuma'', comentou Gillian Anderson, depois de exibir-se dentro de um antigo espartilho no filme ''A Essência da Paixão''.
Idas e vindas Os espartilhos tiveram várias mortes e ressurreições. Em tempos de guerra eles sumiam, em parte porque, com os homens ocupados, lutando na frente de batalha, as mulheres assumiam tarefas nos campos e nas cidades, o que exigia roupas mais confortáveis e simples.
Durante a Revolução Francesa, por exemplo, a burguesia aposentou suas crinolinas (uma armação feita de arcos de aço para moldar a forma das saias) e seus espartilhos. Surgiram então as longas túnicas transparentes, que deixavam boa parte dos seios à mostra.
Mas a idéia de que a silhueta feminina deveria ser mais proeminente nunca se desvaneceu e logo os espartilhos reapareceram. Em 1870, a crinolina foi substituída pela ''tournure'' (uma espécie de almofada), que deixava as mulheres com o perfil em forma de S, com os seios projetados para a frente e os quadris para trás pareciam pombos ciscando migalhas de pão em praças públicas.
A partir de 1900, os espartilhos tornaram-se menores e flexíveis, permitindo movimentos mais livres e postura reta. Foi então que, em 1910, entrou em cena o francês Paul Poiret. Seus desenhos revolucionários inspiravam-se nos trajes usados pelo balé russo de Diaghilev, grande sucesso em Paris. Poiret suprimiu o desajeitado S e criou uma linha mais leve e natural, aperfeiçoada, em 1947, por Christian Dior na coleção Linha 8, baseada nas formas de uma ampulheta.
Nos anos 80, a peça deixou de ser usada por baixo para virar roupa propriamente dita. A idéia foi da estilista francesa Chantal Thomaz. Grandes mestres da alta-costura imitaram sua ousadia e os espartilhos estão por aí, até hoje, mais fashion do que nunca, com suas variações: calções, corseletes e corpetes.
Eles também O incrível é que os espartilhos continuam a seduzir não somente elas, mas eles também: a rapaziada avançadinha os tem em seus guarda-roupas. De olho nessa moçada, o engenheiro de computação Kenneth Wilk criou o Guys In Girdles (Rapazes em Espartilhos). O site (www.guysingirdles.com) contém informações úteis para os homens que corajosamente aderiram aos espartilhos e para aqueles que timidamente confessam sua vontade de usá-los.
''Vou logo avisando que o conteúdo do Guys In Girdles é absolutamente técnico. Não discutimos o significado social e erótico dos espartilhos nem o gosto que certos homens têm em vestir trajes femininos'', ele alerta.
Percebe-se, no entanto, pelos artigos existentes no site, que Kenneth simpatiza com a idéia. Na sua opinião, os homens que usam espartilhos sentem-se mais seguros em relação ao seu corpo. ''Eles acreditam que a lingerie melhora a aparência. Em alguns casos, serve como freio para a glutonice'', diz Kenneth.


