Check-up vascular
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de abril de 2001
Rosângela Vale 
A arteriosclerose, termo genérico para o espessamento e endurecimento da parede arterial, é uma das principais causas de morte no mundo ocidental. Trata-se de um depósito de substâncias derivadas da gordura que reduz o calibre das artérias e traz déficit sanguíneo aos tecidos irrigados por elas. A doença atinge praticamente todas as artérias do corpo, entre elas, a dos membros inferiores levando ao risco de trombose, gangrena e perda do membro, as coronárias, podendo acarretar infarto do miocárdio, e a carótida, cuja consequência pode ser o derrame.
Segundo algumas avaliações, metade dos derrames acontece por problemas circulatórios, principalmente por doença na bifurcação da carótida, enfatiza o angiologista, cirurgião e ultrasonografista vascular Domingos de Morais Filho, diretor de Métodos Não Invasivos da Regional Paranaense da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e professor adjunto da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele explica que a arteriosclerose é responsável ainda pelo aneurisma, que apesar de atingir apenas 5% da população, geralmente só é diagnosticado quando se rompe, matando, nesse caso, metade dos pacientes.
Amputação Na arteriosclerose dos membros inferiores, o principal sintoma é a dor nas panturrilhas após caminhadas. Nos casos mais avançados da doença, pode se instalar uma gangrena, que é a morte dos tecidos. Morais explica que o processo inicia-se em um ou mais dedos do pé e pode levar à amputação de toda a perna se o problema não for tratado a contento.
Segundo o médico, a arteriosclerose manifesta-se clinicamente em 10% da população acima de 50 anos, sobretudo em fumantes que têm nove vezes mais chances de desenvolver o problema, diabéticos, hipertensos e pessoas com alto nível de colesterol. A herança genética é outro fator de risco. O desenvolvimento da doença é lento e progressivo, ou seja, ela é assintomática até que aconteça a oclusão propriamente dita. O angiologista esclarece que é necessário haver uma obstrução significativa cerca de 75% do calibre de uma artéria para que surjam os primeiros sintomas derivados da falta de sangue.
Exame O diagnóstico precoce, portanto, é fundamental. Morais informa que hoje é possível realizá-lo de forma não invasiva através do ultrassom color duplex. O exame possibilita a visualização do fluxo sanguíneo, da anatomia e funcionamento das artérias (e de possíveis placas de arteriosclerose), além do diâmetro dos aneurismas. É geralmente realizado no pescoço, abdome, braços e pernas, de forma separada, ou seja, o médico que suspeita que um paciente tem a doença geralmente pede os exames em locais específicos.
Achei que seria uma boa idéia juntar todos esses exames em um check-up vascular, que faz um rastreamento da doença, localizando e quantificando o problema. A partir do resultado, se necessário, são indicados exames mais completos, diz Morais, que há dois meses trouxe a idéia, inédita no Brasil, para Londrina. De acordo com ele, ao descobrir o problema, é possível acompanhar a sua evolução por meio de exames periódicos e programar a cirurgia, quando se constata o aumento do problema.
Prevenção Para se ter uma idéia da importância do diagnóstico precoce, basta saber que a mortalidade em cirurgias eletivas (programadas com antecedência) nos aneurismas de aorta é de 8%; nas de emergência chega a 50%. Além disso, estudos realizados nos EUA pelo North American Sintomatic Carotid Endarterectomy Trial (Nascet) comprovaram que a cirurgia de carótida em pacientes com placas importantes previne derrames, informa o angiologista.
Para cada fase evolutiva da arteriosclerose e cada órgão afetado há uma forma diferente de terapia, mas todas passam pelo controle dos fatores de risco. Mas, melhor que tratar é evitar o seu aparecimento. Isso pode ser feito com uma dieta alimentar equilibrada, não fumando e com a prática regular de exercícios físicos, aconselha Morais.
Segundo ele, o principal objetivo do check-up vascular é enfatizar a importância da medicina preventiva, que custa menos e garante muito mais sucesso. Para quem vai se submeter a exames desse tipo, Morais adverte para a necessidade de verificar se o profissional possui habilitação em ultrasom vascular, pois nem todo o médico tem condições de realizar os exames adequadamente. Uma parceria entre o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular tem fornecido diretrizes para a regulamentação da atividade, informa.


