Check-up nos sites médicos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2001
Chiara Papali 
É cada vez maior o número de páginas sobre medicina e saúde na Internet. Em sua maioria, os sites trazem uma lista com dezenas de doenças, explicando o que são e quais os sintomas, tratamentos e meios de prevenção. As opções vão desde cuidados na gravidez, viroses e bronquites, até doenças mais sérias, como câncer. Alguns sites oferecem até consultas on-line, principalmente nas áreas de psicologia e psiquiatria. Internautas, doentes ou hipocondríacos, podem ter acesso, com apenas alguns cliques no mouse, a diagnósticos, tratamentos e até sugestões de medicamentos para o seu caso.
Especialistas alertam que a informação pode ser muito útil, se usada com critério, mas, as consultas on-line não podem substituir o relacionamento médico-paciente. Como a Rede é livre para qualquer pessoa, informações errôneas podem ser veiculadas e até prejudicar a saúde de quem se arrisca a se automedicar.
Riscos O médico cardiologista José Eduardo de Siqueira, pós-doutor em Bioética e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), acredita que o senso crítico do paciente deve prevalecer. As informações colhidas na Internet devem ser discutidas com o médico, e usadas para enriquecer a consulta. O paciente não deve aceitar como verdade tudo o que lê nos sites, e tirar suas dúvidas com o seu médico, que é quem vai poder dizer se o procedimento é adequado para o caso, afirma.
Sem citar nomes, ele cita o exemplo de uma mãe que seguiu a orientação de um site de saúde e ministrou ao filho um vasodilatador nasal, recomendado para o tratamento de crises de espasmos brônquicos. O resultado foi uma crise hipertensiva na criança, causada pelo efeito colateral do medicamento. A mãe estava querendo o bem do filho, mas colocou-o sob risco porque não passou pelo crivo de um médico, disse.
Informações genéricas O médico radiologista Omar Taha, de Londrina, responsável por um site sobre radiologia, confirma a grande procura de consultas via Internet. Recebemos muitos e-mails de pacientes que já passaram pelo médico, às vezes até já foram operados, e querem tirar dúvidas sobre o tratamento porque não sabem o que está acontecendo. É uma situação complicadíssima, conta. O link de perguntas e respostas que foi criado para esclarecer questões gerais sobre ultra-sonografia, tomografia e ressonância magnética, entre outras, tem recebido perguntas de casos específicos. Apesar de todos os e-mails serem respondidos, um aviso alerta que as informações são genéricas e que jamais poderão ser utilizadas para determinar ou conduzir um caso médico, esclarece.
Um dos motivos que pode estar favorecendo a intensa procura por informações médicas na rede é o precário relacionamento entre médicos e pacientes durante a consulta, alerta Siqueira. O rigor técnico exagerado na formação do profissional, e a grande utilização de tecnologia em exames deixam a interação humana de lado. Médicos acabam tratando a doença e não a pessoa que tem a doença, explica.
Por outro lado, a Internet é poderosa ferramenta de pesquisa e mesmo de trabalho para os profissionais da saúde. A rede é muito utilizada para os médicos conhecerem novos procedimentos, medicamentos, se atualizar, conhecer pesquisas que ainda não foram publicadas. A tecnologia não pode ser considerada inimiga, um casamento entre o médico real e a informação virtual pode ser muito eficaz, afirma o médico Omar Taha.
Regulamentação Conselhos Regionais de Medicina (CRM) já estudam como regulamentar os sites sobre saúde e aplicar critérios éticos na Internet, a exemplo do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). O objetivo é fazer com que os sites médicos sejam fontes confiáveis de informação.
Em março, o Cremesp publicou uma cartilha para regulamentar o conteúdo das informações veiculadas na rede, o Manual de Ética para Sites de Medicina e Saúde na Internet, válido para os 80 mil médicos filiados à entidade. Entre as principais recomendações está que toda informação deve ser exata, atualizada, cientificamente fundamentada, com um profissional responsável por ela. A cartilha é baseada em critérios semelhantes aos internacionais, da ONG suíça Health on Net Foundation e da americana Internet Healthcare Coalition.
No Paraná, a recomendação é utilizar os mesmos critérios da cartilha do Cremesp, explica o conselheiro estadual do CRM Paraná, José Luís de Oliveira Camargo. A resolução foi homologada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e temos orientado os médicos a seguir as disposições dessa cartilha, que estão de acordo com o código de ética da profissão. Os internautas não devem aceitar sites que não tem a identificação de sua procedência ou do profissional responsável, disse.


