Centímetros a mais
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quinta-feira, 29 de maio de 2003
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Uma pesquisa sobre padrões de vida, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), concluiu que os brasileiros estão mais altos. De acordo com o estudo, de 1989 a 1997, a população do País cresceu dois centímetros, atingindo a altura média de 1.70m. Os reflexos dessa mudança já estão sendo sentidos na indústria e no comércio. O setor de vestuário aumentou em quatro centímetros o comprimento das mangas de camisa para a faixa etária de 16 anos.
Segundo levantamento feito pelo departamento de Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), há 20 anos o brasileiro calçava entre 38 e 40. Hoje, a média nacional varia de 40 a 42. Essas mudanças estão sendo constatadas há tempos pelos vendedores nas lojas, mas os fornecedores parecem não se dar conta disso. ''Se existissem mais numerações 38, 39 e 40 venderia tudo'', diz a gerente da Arezzo de Londrina, Maria Helena Viana Beraldi.
De acordo com ela, somente nesta estação a loja passou a ter, a título de experiência, sapatos número 40 no estoque. ''As botas que chegaram com essa numeração foram vendidas na primeira semana'', conta. Trabalhando há 10 anos nessa área, Maria Helena constata que a situação vem se intensificando nos últimos três anos. ''A meninada está crescendo demais'', diz.
A empresária Valquíria Morcelli também vem observando o fenômeno. ''É uma geração diferente. Eles têm pernas e braços mais alongados e pés maiores'', diz. Proprietária de uma loja de calçados especializada em números maiores adolescentes correspondem a 50% da clientela , ela conta com um estoque capaz de dar espasmos de felicidade naqueles que colecionam bolhas nos pés de tanto procurar sapatos com numeração acima de 40.
Ao longo de cinco anos de experiência no ramo, ela própria já sentiu o sapato apertar ao rodar as feiras do setor em busca de fornecedores. ''Existem poucos fabricantes de sapatos maiores no País, pois são necessárias fôrmas específicas, que fogem do padrão industrial brasileiro'', justifica.
Genética O médico hebiatra Walter Marcondes Filho informa que, há 30 anos, a média de altura da mulher brasileira era de 1,60m (a mesma de hoje). Já o homem cresceu cinco centímetros, passando de 1.68m para 1.73m. ''Não sei se temos adolescentes mais altos porque estão de fato mais altos ou porque o número de adolescentes aumentou, gerando uma maior diversidade de biotipos'', diz. De acordo com dados do IBGE de 2000, existem de 50 milhões de brasileiros com idade entre 10 e 24 anos.
Para o médico, esse aumento de estatura está relacionado à melhora das condições de vida da população. Os brasileiros, em tese, estariam se alimentando melhor nos primeiros anos de vida, fundamentais para o seu desenvolvimento. Outro aspecto importante é a eficácia no combate às doenças da infância, como varicela, caxumba, sarampo e outros males que debilitavam as crianças. Marcondes destaca que o estímulo ao aleitamento materno é um dos responsáveis por esse progresso, assim como a vacinação e o maior acesso à assistência médica.''Hoje, as crianças recebem a devida orientação do pediatra quanto à dieta balanceada e à indicação de cirurgias'', observa.
Um exemplo, segundo ele, é a cirurgia de adenóide, que hoje é feita na época correta, ainda na infância, e não mais na adolescência, como no passado. ''Amídala e adenóide grandes não permitem que a pessoa respire corretamente, oxigenando menos o tecido e prejudicando o crescimento'', explica. Marcondes aponta ainda a mistura de raças, característica acentuada no Brasil, como outra causa do aumento de estatura do brasileiro, já que a genética é o maior determinante da altura.
''Se tanto o pai como a mãe forem baixos, dificilmente os filhos serão altos: podem ter, no máximo, uns 10 centímetros a mais'', afirma. O cálculo feito pelos especialistas para prever isso é o seguinte: altura do pai + altura da mãe + 13 dividido por 2 dá a provável altura do filho homem. Para a estimativa da estatura da menina, basta subtrair 13 ao invés de somar.
Sono As diferenças no crescimento de meninas e meninos (veja quadro nesta página) se evidenciam na puberdade. No caso delas, o estirão acontece antes da primeira menstruação, que geralmente chega aos 12 anos. Nos três anos anteriores, ela terá crescido de oito a nove centímetros por ano. Depois disso, ganhará apenas cinco ou seis centímetros, parando de crescer aos 13.
De olho na passarela No menino, a puberdade se inicia no período de 12 a 14 anos. E ele cresce de oito a dez centímetros por ano, também durante três anos, geralmente até os 16. ''A puberdade da menina é mais precoce, por isso, ela se desenvolve mais rapidamente e pára de crescer mais cedo. Temos uma grande quantidade de mulheres altas, mas elas não são maioria, apenas aparecem mais'', acredita o médico, que tem atendido várias mães, ansiosas para saber quantos centímetros suas filhas ainda podem crescer, de olho na carreira de modelo.
Para responder a questão, o médico dispõe de dois parâmetros. Primeiro, verifica a curva de velocidade de crescimento e de peso, comparando os dados da pessoa com a tabela padrão. Depois, solicita um raio-X da idade óssea. ''O bom prognóstico é quando a pessoa está abaixo da curva de crescimento e seu raio-X apresenta idade óssea inferior à idade cronológica. Significa que vai crescer mais'', explica. Caso contrário, melhor esquecer o sonho das passarelas. A prescrição de hormônios de crescimento só é feita quando se verifica, por meio de dosagem hormonal, que a criança não está tendo o estímulo normal, casos que, segundo Marcondes, são pouco frequentes.
Para as mães que se preocupam com o assunto, o médico esclarece um dos mitos que envolvem a questão: a prática de esportes não influencia o crescimento, ainda que seja benéfica em vários outros sentidos. Mas aquela velha história de que criança tem que ir cedo para cama é bastante pertinente. ''A secreção do hormônio de crescimento acontece entre 10 horas da noite e seis da manhã, durante o sono. Crianças muito agitadas, que costumam dormir tarde, e adolescentes que saem demais ou ficam na Internet durante a madrugada podem estar deixando de crescer'', avisa o médico. q
Walter Marcondes Filho
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