Casamento de princesa. Felizes para sempre?
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quinta-feira, 09 de junho de 2005
Leandro Quintanilha<br> Agência Estado 
O príncipe virou sapo: o casamento da bela Diana Spencer com o príncipe de Gales, em 1981, foi um dos mais comentados eventos do século 20. Assim, como a conturbada separação do casal nos anos 1990. Os dois assumiram que mantiveram relações extraconjugais. Ela, com um empregado. Ele, com uma antiga namorada, com quem acabou se casando este ano. A morte trágica de Diana em 1997 a poupou de mais esse desgosto
Para sempre: Grace Kelly, a musa de Hitchcock, era uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood quando deixou a carreira para se casar com o príncipe Rainier, de Mônaco. Dedicou-se à família e nunca mais atuou. Ela morreu em 1982 e ele, neste ano
Se você tem alguma coisa contra o casamento, fale agora ou cale-se para sempre. Sim, porque nunca se falou tanto (e tão mal) sobre esta instituição, que é tida como a mais 'universal' da história da humanidade. Num tempo em que o divórcio deixou de ser motivo de desprestígio social e as relações afetivas começam a ficar mais leves e passageiras, casar-se e ter filhos não são mais passos automáticos do protocolo básico da vida adulta. Agora, casamento é uma escolha. E, diga-se, controversa.
Acaba de chegar ao Brasil um livro sobre o assunto com um título, no mínimo, provocativo: 'Você Só Precisa de Amor e Outras Mentiras sobre o Casamento' (Globo, 248 págs., R$ 36), do psiquiatra e terapeuta de casais norte-americano John W. Jacobs. Ele lida com dilemas da vida em comum há mais de 20 anos. ''Somos, em geral, ingênuos quando se trata de problemas de relacionamento'', escreve na abertura do livro. ''E queremos continuar assim porque nos assusta aceitar o que realmente é preciso para manter uma relação amorosa com outro ser humano por toda uma vida.
Todo amor é condicionalMas o que ''realmente é preciso''? Ao contrário do que pode parecer, Jacobs acredita que a felicidade no casamento é, sim, viável. Apenas ressalta a importância de se desmentirem algumas lorotas, como a de que amor basta para se construir uma relação saudável e duradoura. É preciso também respeito, admiração, diálogo e... tesão. ''A crença fantasiosa no amor incondicional deixa os cônjuges desnecessariamente decepcionados um com o outro e com o próprio amor.''
E dos mitos do amor romântico a sexóloga e psicanalista carioca Regina Navarro Lins também entende muito bem já publicou três livros sobre o tema, pela Editora Rocco: ''A Cama na Varanda'' (340 págs., R$ 39), 'Conversas na Varanda' (280 págs., R$ 34) e 'Na Cabeceira da Cama' (236 págs., R$ 28,50). ''O casamento tradicional precisa ser totalmente reformulado'', diz. ''Esse modelo de relação se transformou num emaranhado de normas e leis que geram mais insatisfação que prazer.''
Regina vai além de Jacobs ao discorrer sobre as mentiras comumente propagadas sobre o casamento. ''Primeiro, é preciso abandonar o desejo de fusão com o outro, isso é impossível'', afirma. ''Outra coisa: há de se aceitar que a exclusividade sexual é impraticável para a maioria das pessoas. Amor e desejo não são a mesma coisa.''
Para a autora, vive-se hoje um conflito entre a fantasia da simbiose no casamento (aquela velha idéia de que ''dois se tornam um'') e a crescente aspiração contemporânea pela liberdade de se fazer o que se quer, quando se quer e, principalmente, com quem se quer.
''O casamento tradicional, que aprisiona e impõe sacrifícios e concessões, está se dissolvendo'', afirma. ''A graça da vida é permitir-se ser quem se é, dedicar-se aos próprios projetos. E isso não tem nada a ver com egoísmo.''
A monogamia das araras azuisO casamento vai acabar? Não tão cedo, de acordo com o terapeuta de casais Ailton Amélio da Silva, professor da disciplina relacionamentos amorosos do departamento de pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP e autor do livro 'O Mapa do Amor' (Gente, 312 págs., R$ 34). ''Em todas as épocas e em todas as culturas, o homem manteve rituais e/ou legislações para reger relações estáveis.''
O especialista afirma que, além de fatores culturais e de personalidade, pode haver um componente biológico que induza o homem a estabelecer parcerias de longa duração. ''Algumas espécies animais são monogâmicas, como as araras azuis'', compara.
Mas é claro que as relações entre humanos são bem mais complexas. Envolvem temas delicados como administração das finanças, educação dos filhos, convicções religiosas, incompatibilidade de projetos pessoais... Em todo caso, pessoas são bem melhor equipadas que araras para decidir o que querem. E também, claro, o que não querem.


