Inspirado no realismo fantástico do novelista Dias Gomes, o estilista Beto Neves, da Complexo B, apresentou sua coleção fazendo graça ao falar de utopia. ''O inverno do Rio é utópico, não existe'', sentenciou. Nas passarelas do Fashion Rio, o outono-inverno é realmente mais ameno. Tanto nas espessuras dos tecidos, quanto nas cores. Ou na ausência de cores, já que a dupla preto e branco volta a dar o tom. Na cartela ainda imperam o vinho, o grafite e o azul marinho. Até mesmo as estampas estão mais serenas.
Os vestidos longos, que tanto fazem sucesso no verão, seguem firmes na próxima estação. Mas é bem verdade que as estampas acesas saem de cena e são trocadas por tecidos lisos e a modelagem se ajusta um pouco mais, apesar das palavras-chaves do Fashion Rio terem sido ''descolados do corpo''. É o jeito 2006 de falar em roupas que não são justas, mas também não são volumosas. A modelagem tem um toque da linha A dos anos 1960, década preferida no quesito volta ao passado.
Entre os destaques da temporada carioca, a volta do perfume oriental nas criações glamourosas de Walter Rodrigues. Organza vira quimono estruturado, rabos de peixe não economizam nos tecidos. A estreante Cantão preferiu seguir o coração e não a cartela-chave de cores e alegrou a passarela com verdes e roxos em flores e listras. Do grupo de novos designers para desfiles-solo, Melk Z-Da e Maria Fernanda Lucena não decepcionaram. Pelo contrário. Os traços são firmes nas amarrações e nos detalhes, mas o resultado é pura leveza.
Vestidos e jumpers (ótimos para sobreposições) na altura do joelho trazem o comprimento ideal para acompanhar as meias opacas. Aliás, ótima opção para o inverno tropical. Ao sul de São Paulo o modelito aposta na meia. Nas outras regiões, as mesmas peças podem ser usadas sem a meia-calça. Truque fashion para um país continental.
Os trench-coats 7/8 chegam com cara de peça-única, podendo ser usado como vestido comportadinho e não só como casaco para proteger do frio. As masculinas camisas de smoking ganham ternura extra se usadas com saias longas. A faixa larga na cintura completa o visual. E para quem adora as calças que já foram chamadas de Saint-Tropez e hoje poderiam bem ser definidas como ''abaixo do Equador'', a cintura das roupas está subindo e voltando a lugar de origem. Mas tudo em doses homeopáticas para não assustar a freguesia.

Casaco curinga
 O trench-coat do inverno 2006 aparece na lã, no couro, no jeans... O comprimento é na altura do joelho. Vai além da função de casaco para se tornar peça-única da produção, usado como vestido.


É preto no branco
Ou seria o contrário? Em todo caso, o preto-e-branco está presente na maioria das coleções apresentadas nas passarelas cariocas. Tem um toque de glamour na inspiração dos anos 1950.


As belíssimas
Na contabilidade da moda, é 8 ou 80. No caso, a modelo faz muitos, muitos desfiles (o que significa que caiu nas graças dos estilistas), como por exemplo Carol Trentini e Camila Finn, ou então faz apenas um, tipo contrato exclusivo como o de Gisele Bündchen, Michelle Alves e Raica Oliveira, que fizeram um único desfile no Fashion Rio. Só para quem pode.


Eles também têm vez
  Homens gostam de moda e não precisam mais esconder isso. O inverno masculino passa pelo xadrez, pelo cotelê, moletom e sobreposição. Os tons são menos sóbrios que a coleção feminina.


A cintura está subindo
Primeiro a cintura baixa foi chamada de Saint-Tropez, em homenagem à então badalada praia francesa. Mas o cós foi descendo tanto que o nome acabou sendo esquecido, assim como o lugar original da cintura. Mas eis que aos poucos os estilistas tentam mudar o cenário. As faixas largas são a tentativa do inverno 2006.


* A jornalista Karla Matida viajou ao Rio de Janeiro a convite da organização do evento

mockup