Rosângela Vale
Quem costuma frequentar as principais lojas de decoração em São Paulo, como o Empório Beraldin e a Exclusiv, não imagina que boa parte das belíssimas peças em seda rústica espalhadas por aqueles suntuosos ambientes é produzida em solo paranaense. Mais especificamente, em um modesto galpão localizado em Santa Felicidade, um dos bairros mais pobres de Maringá. De lá saem cortinas, tapetes, tecidos para estofados, almofadas, jogos americanos, xales e mantas das mais diversas e ricas texturas, originadas por um processo de fiação genuinamente artesanal.
Uma iniciativa rara no Brasil, onde a fiação de seda está praticamente restrita aos moldes industriais e é monopolizada por quatro grandes empresas, que controlam desde a multiplicação das raças matrizes do bicho-da-seda até a comercialização do fio. Política que, aliada ao preço da mão-de-obra, cara em relação aos países asiáticos, não cria condições favoráveis para as fiações artesanais. Mas o zootécnico Gustavo Augusto Serpa Rocha resolveu encarar o desafio. Há 11 anos criou O Casulo Feliz , que hoje produz 1.200 quilos de fio por mês e emprega até 100 pessoas, 17 com carteira assinada e o restante terceirizado.
Natural de Guarapuava, Gustavo chegou à cidade como vestibulando do curso de Zootecnia, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Depois de formado surgiu a chance de ficar na universidade como professor de sericicultura. Foi quando ele teve a oportunidade de conhecer a fundo a fabricação do fio de seda. Descobriu, então, que as indústrias fiavam apenas os casulos com tamanho e forma padrão. Os imperfeitos eram eliminados do processo, pois só podem ser fiados em máquinas manuais ou semimanuais. Ele explica que a maioria desses casulos são exportados para a Índia, que tem tradição na fiação artesanal. ‘‘Os casulos são de segunda, mas a seda que sai deles é muito mais bonita’’, observa ele, lembrando que o xantungue (tecido nobre e caro), é originário de casulos duplos, considerados defeituosos pela indústria.
Da experiência com a fiação de l㠖 atividade de seus pais – o artesão Gustavo tirou a inspiração para abrir o negócio. As primeiras meadas em seda saíram da antiga roca da família, que depois foi substituída por máquinas elétricas projetadas e desenvolvidas por ele. O fogão e as panelas, inicialmente usados para cozinhar os casulos no quintal de sua casa, deram lugar a uma caldeira devidamente instalada no espaçoso galpão, onde o forte cheiro do cozimento mistura-se ao vaivém barulhento dos teares.
Da limpeza dos casulos à finalização das peças, nenhum produto químico é utilizado. O tingimento é feito com pigmentos de origem vegetal descobertos graças às experimentações do artesão. Cada tonalidade, portanto, tem uma matéria-prima correspondente: o laranja vem do urucum; o dourado, da casca do pinheiro; o mostarda, da casca de cebola; o amarelo, do acafrão; o marrom, da cerragem do eucalipto; o creme, do pinus. Pequenos insetos também podem render cores interessantes: da cochonilha (parasita do cactos), Gustavo extrai um belo tom de carmim.
Responsável por criações infinitamente reproduzidas em revistas de decoração, como a cortina de palha de seda, o artesão adora inventar misturas com o seu nobre produto: juta, rami, sisal, linho, cânhamo e palha de buriti são alguns dos parceiros da seda em tapetes de tamanhos diversos. As peças são feitas em teares manuais por mulheres de várias localidades, como Mauá da Serra, Itambé e Floresta. A meta de Gustavo é que esses produtos artesanais correspondam a 33% da atividade de sua empresa. A fabricação de tecidos feitos em teares industriais ficaria com outros 33%. E a de fios para fornecimento a tecelões, com parcela idêntica. Segundo ele, os números atuais chegam perto disso.
Algumas invenções do artesão já cruzaram a fronteira do Brasil. Tecelões que utilizam os fios de O Casulo Feliz têm exportado peças para a Itália através do projeto ‘‘Transformarte’’, que visa a valorização do artesanato brasileiro, reunindo profissionais de vários Estados. ‘‘Cada um fornece um produto. São Paulo entra com jogos americanos; o Nordeste, com redes; Minas Gerais, com toalhas de mesa’’, explica. Com os seus belos fios, Gustavo é o representante do Paraná.
Serviço:
O Casulo Feliz, fone (44) 226-1580Com um processo de fiação artesanal, empresário de Maringá transforma casulos considerados imperfeitos em belas peças de decoração
O artesão Gustavo e a antiga roca de onde saíram as primeiras meadas de fios de sedaAlmofadas e mantas: tingimento é feito com pigmentos de origem vegetal e animalUm festival de cores, tramas e texturas nos tapetes de seda, que se misturam a outras matérias-primas, como juta, sisal e ramiCortina em palha de seda: criação de Gustavo infinitamente reproduzida nas páginas de revistas de decoraçãoDECORAÇÃOFuncionários puxam o fio de seda dos casulos: produção artesanal

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