Educadores concordam que, nos últimos anos, os governos investiram mais em educação. Porém, o que assusta não é a taxa de analfabetismo no Brasil, de 13,60%, mas o fato de muitos estudantes às portas do ensino médio não saberem ler e escrever

O futuro na opinião de alguns jovens brasileiros é uma página que se escreve com boas lições que se aprendem em casa e na escola.
Numa sociedade em que o contato familiar está se tornando cada vez mais virtual, com pais trabalhando fulltime, sobra para os professores uma dupla jornada: além de ensinar os conteúdos também ajudam a formar valores.
Uma pesquisa realizada pelo Ibope, a pedido do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio (Sinepe-Rio), entre os meses de julho e agosto, com 812 estudantes, revelou que 77% acreditam que o que garante um bom futuro são os pais e 48% assinalaram como resposta a escola.
É consenso entre muitos educadores que, nos últimos anos, o Brasil deu um passo importante em direção ao acesso à escola, o que ajudou a colocar dentro da sala de aula 97% dos jovens de sete a 14 anos de idade.
Mas a educação brasileira ainda carece de investimentos. Anualmente, o País investe por aluno apenas US$ 842, enquanto a Argentina ganha de goleada nessa campo ao destinar US$ 1.241.
Não é preciso nem comparar esses valores aos dos EUA, que aplicam US$ 8.049 per capita por ano, para chegarmos à conclusão de que é necessário investir mais na qualidade da escola e dos professores brasileiros.
Números que, colocados na ponta do lápis, rascunham problemas econômicos e sociais flagrados pela avaliação do Prova Brasil.
Um vexame nacional, o exame revelou que estudantes de quarta série obtiveram em matemática e língua portuguesa notas compatíveis com os de primeira série. O mesmo aconteceu com os alunos de oitava série, que não conseguiram alcançar os conteúdos de quarta série.
Aos olhos do mundo esses resultados diagnosticam que os estudantes de hoje têm chances de - no futuro - transformarem o Brasil num país com uma grande massa de trabalhadores incapaz de pensar.
Considerações Na semana passada foi deflagrado o período de matrículas para o primeiro ano do ensino fundamental na rede pública estadual.
Enquanto as escolas estão em compasso de espera pelos novos estudantes, especialistas em educação questionam o assunto na Folha da Sexta.
Doutora em Educação pela Unicamp, a professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a pedagoga Silza Maria Pasello Valente, membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional, criado em 1996, com subsídios da Fundação Ford, faz algumas considerações sobre os métodos de avaliar o aluno:
''Acho que a avaliação está chegando num ponto em que existem inúmeras possibilidades de avaliar. Benjamin Bloom, na década de 70, dizia que ninguém pode dizer que é inocente em termos de avaliação. Eu não sou contra os exames nacionais, que procuram verificar os produtos da educação. Sou contrária, quando os testes são discutidos, mas não são traduzidos em políticas públicas'', afirma Silza Maria.
A pedagoga aponta para uma valorização do que considera ''fenômeno educação'' e que escorou o crescimento de países como a Coréia do Sul.
No Brasil, os alunos ficam na escola 4,9 anos, em média, contra 12 anos nos EUA, oito na Argentina e 11 na Coréia.
''Entre as famílias coreanas existe uma valorização grande da educação. Um exemplo disso é que muitas avós ficam observando as crianças das janelas das escolas. Passamos por inúmeras reformas pedagógicas, mas só que essas alterações exigem contrapartida de alteração da organização da escola. O que faz a diferença em educação é comprometimento, coerência e compromisso'', ressalta a pedagoga.
À evasão escolar, Silza Maria contrapõe as condições em que os estudantes estão chegando ao ensino médio.
Na última década do século XX, a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu de 20,1% para 13,60%.
O reflexo desses percentuais em cidades como Londrina registra uma taxa de analfabetismo de 7,07%.
Em Maringá (cidade-pólo/Noroeste), o índice é de 5,39%, mas municípios como Florestópolis (73 quilômetros ao norte de Londrina), os números chegam a 17,48%, pondendo atingir 24,20% em Doutor Ulysses (117 quilômetros ao norte de Curitiba), no Vale da Ribeira, uma das regiões mais carentes do Paraná.
''Mesmo os alunos que chegam ao ensino médio, muitas vezes, não sabem ler e escrever. Se registramos essas taxas de analfabetismo em estados como o Paraná, imagine o que acontece em outras regiões? Esse é o analfabeto funcional, mas já existem os analfabetos digitais. Em educação não podemos ter radicalismo. O educador precisa entrar em contato com vários métodos para definir um que se adapte a sua realidade. Se uma criança não se adapta a uma medologia, é necessário tentar outra. É lamentável quando os governos obrigam a rede toda a utilizar só uma possibilidade'', argumenta Silza Maria.
O presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe), Marco Antonio de Souza concorda que nos últimos anos, os governos investiram mais em educação, acrescentando que a cobrança da população foi o fiel dessa balança.
Souza considera um avanço a implantação do ensino fundamental de nove anos no País. ''Principalmente porque hoje, as classes menos favorecidas têm crianças que acabam fora da escola ao deixarem a creche. Essas crianças não tinham para onde ir. Em Londrina, a prefeitura já absorvia esses alunos na rede municipal, mas o mesmo não acontece em outras cidades'', avalia Souza.
Os esforços para melhorar a educação no Brasil tropeçam na falta de consciência. As Organizações Não-Governamentais têm papel importante para ajudar a tapar essa brecha.
Uma pesquisa realizada em 2005, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (INEP), revelou que 78% das famílias estão satisfeitas com o ensino público apenas por conseguirem uma vaga para os filhos perto de casa.
''Às vezes, a participação das ONGs não aparece tanto, mas o trabalho é bastante grande. Porém, a formação dos estudantes dentro da escola compete à escola'', avalia a diretora do curso de Pedagogia da Pontíficia Universidade Católica (PUC-Curitiba), mestre em Educação, Elisa Machado Matheussi.
O Brasil não está sozinho nessa luta para erradicar o analfabetismo. No mundo, 800 milhões de pessoas não sabem ler e escrever. Dois terços dessa população são mulheres.

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