Repentinamente, sem a menor explicação, surge uma insistente dor nos braços. A coluna parece pesar. E os formigamentos tornam-se uma constante. Você pode ainda não ter percebido, mas provavelmente está sendo vítima de uma das doenças do século XXI, a Lesão do Esforço Repetitivo (LER), ou Doença Osteomuscular Relacionada ao Trabalho (DORT), que vem se transformando num dos maiores pesadelos da medicina moderna. Uma vez diagnosticada, e se em estado avançado, ela exige um tratamento que nem sempre é capaz de aliviar totalmente os sintomas, fazendo com que muitas vezes a pessoa se afaste definitivamente da atividade que provocou as lesões.
DivulgaçãoCompacta e ergonômica, a mesa de computador é ideal para residênciasEntre trabalhadores que passam o dia em cima de uma mesma atividade como a digitação, por exemplo, já era de se esperar que a doença aparecesse. A novidade é que agora ela vem sendo motivo de preocupação também entre crianças e adolescentes. A explicação está na modernização. Já se foi o tempo em que as lições e as pesquisas eram feitas nos cadernos e nos livros. A moda agora é ficar ligado na Internet. E a maior parte da infância e da adolescência vem sendo passada mesmo em frente à telinha do computador.
Tratamento difícil O resultado é a preparação prévia para a instalação da LER mais tarde. E o melhor remédio é, como em todas as outras doenças, a prevenção. ‘‘Ela é uma doença cumulativa’’, explica o pediatra e supervisor médico pericial do INSS, Marcus Vinicius Dudeque. ‘‘Normalmente, a criança cria hábitos na infância que vão provocando as lesões. Com a continuidade deste esforço repetitivo, podem se formar inflamações graves e de difícil tratamento, configurando a LER’’.
Assim, medidas como o uso de móveis adequados, prática de exercícios, repouso, podem, segundo o médico, ajudar a evitar o problema. Tudo deve ser adaptado às condições físicas e ao corpo de cada pessoa. ‘‘Devemos adaptar a máquina ao homem ou à criança. E não o homem à máquina. Por isso, é sempre bom evitar móveis com bordas angulosas, bem como o tempo prolongado diante de um computador. A dica é um repouso de pelo menos dez minutos para cada 50 de digitação ou consulta. Outra item fundamental é a prática de exercícios como o alongamento. É sempre bom escutar o corpo, as reclamações dele. E parar quando necessário’’, esclarece Duqueque.
Mauro Frasson‘‘É uma doença cumulativa. Normalmente, a criança cria hábitos na infância que vão provocando as lesões’’, afirma o médico Marcus Vinicius DudequeCaso não tenha sido prevenida, a doença pode ser tratada com diferentes tipos de medicamentos, dependendo da gravidade dos sintomas. Analgésicos, psicotrópicos, acupuntura, massoterapia e até mesmo morfina e antidepressivos fazem parte da lista, que deve ser indicada apenas por profissionais. ‘‘A abordagem do tratamento deve ser muito profissional’’, explica o pediatra. ‘‘Deve envolver médicos, terapeutas e ortopedistas, e jamais ser uma coisa caseira, sem orientação’’.
Móveis especiais E se a idéia é mesmo a de adaptar a máquina ou o móvel às crianças e adolescentes, algumas fábricas já começaram a projetar algumas peças bem interessantes. As cadeiras têm encostos e assentos que podem ser regulados conforme a altura de cada um. As mesas também sobem e descem, dando mil e uma possibilidades de ajustes. E tudo é testado para ver se realmente é possível resolver o problema.
Em Curitiba, uma dessas empresas é a Flexiv, com filial em Londrina, que já comercializa escrivaninhas, mesas de computador e cadeiras, especialmente projetadas para profissionais, internautas e estudantes moderninhos. Postura, apoio para os braços e pernas e distanciamento da tela do computador são alguns dos pontos observados pelo arquiteto Ronaldo Duschenes quando vai desenhar cada peça.
‘‘Passamos a maior parte do dia sentados’’, comenta Duschenes. ‘‘Sentamos para ler, para ver televisão, para fazer as refeições e para trabalhar. Só falta sentar para dormir. E com as crianças acontece exatamente a mesma coisa. Vejo como exemplo os meus filhos. Eles passam em média duas horas por dia em frente ao computador. Mas, se pudessem, com certeza passariam um tempo ainda maior. Por isso, é preciso que se criem móveis confortáveis e adaptáveis ao corpo’’, argumenta o arquiteto.
O preço não é dos mais baratos. No entanto, o arquiteto argumenta que é compensador quando se pensa na economia que se faz em relação à saúde. ‘‘É só imaginarmos o que custa o crescimento com problemas. Você olha a criança sentada no chão, brincando com o computador e vê que ela rapidamente vai perdendo a tendência natural de ficar ereta. Um problema que costuma se agravar ainda mais quando ela começa a ir para a escola e usar as carteiras convencionais’’.
Vale aqui ressaltar alguns tipos de LER como a tendinite, inflamação dos tendões; a tenossinovite, inflamação dos tendões dos dedos e mãos; a epicondilite, inflamação dos cotovelos; e a bursite, que é a inflamação das bursas localizadas nos ombros.

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