Cabelos prateados, auto-estima dourada
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quinta-feira, 19 de julho de 2007
Clarissa Thomé<br> Agência Estado 
Não vale para todas a máxima popular segundo a qual mulher não envelhece, fica loura. Há cada vez mais mulheres dispostas a assumir os cabelos brancos. A pesquisadora Flávia Rosário decidiu investigar por que as inovações da indústria de cosméticos não têm apelo sobre elas. O resultado foi ''Padrões Estéticos e Comportamento Desviante: Um Estudo Exploratório com Mulheres que Não Pintam o Cabelo'', único trabalho brasileiro apresentado no workshop Novos Estudos do Comportamento do Consumidor, na França.
A dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio (UFRJ), revelou que, contrariando o senso comum, essas mulheres não são relaxadas com a aparência. ''Elas têm seu ritual de beleza, praticam exercícios, usam anti-rugas e vão ao cabeleireiro de três em três meses'', diz. ''Mas gostam que os outros percebam que são diferentes, querem se sobressair na multidão.''
Elas também disseram que decidiram não pintar o cabelo por consciência ecológica - não admitiam submeter-se a produtos químicos - ou alegaram não querer ficar escravas da tintura. E disseram que sofrem recriminações de outras mulheres, mas são incentivadas por amigos, companheiros de trabalho, maridos e namorados.
Uma moça de 27 anos com os cabelos já grisalhos contou que foi a uma festa com o marido, executivo de empresa de cosméticos. ''Todas as mulheres estavam superproduzidas e a olharam com reprovação. Mas o marido, apesar de trabalhar no ramo, sempre a incentivou a manter os cabelos naturais'', diz Flávia, que começou o mestrado para achar pessoas que usavam o corpo para comunicar contravalores. ''Pensei em piercing, tatuagem, até que percebi mulheres novas, de 25 a 55 anos, que não pintavam os cabelos. O que elas querem comunicar?''
Flávia, que já começa a ter os primeiros brancos e enfrenta o dilema de pintá-los ou não, acredita que seu trabalho pode ajudar empresas de cosméticos a entenderem o que está por trás da decisão das grisalhas. ''Ouvi 12 mulheres, em entrevistas de até duas horas e meia. São formadoras de opinião, com poder aquisitivo, que se queixam de não ter produtos para elas.''
A pesquisa é um dos trabalhos da Cátedra L'Oréal de Comportamento do Consumidor, financiada pela indústria de cosméticos. ''Ao mesmo tempo em que muitas consumidoras fazem cirurgias para parecerem mais novas, outras entendem, aceitam e assumem que o tempo passou. As empresas precisam entender os dois mecanismos'', diz a coordenadora da Cátedra, Letícia Casotti.
Aos 36 anos, Marta Machado nunca pintou os cabelos e é grisalha desde os 25 anos. A escolha teve como primeira razão a falta de paciência. ''Sou muito preguiçosa para isso.'' Em segundo lugar, a paz com o espelho. ''Para cada crítica, recebo dez elogios pela coragem, embora não ache que seja corajosa, é só uma questão de me sentir bem.''


