Cabelos: corte com atitude
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Vera Fiori<br> Agência Estado 
Para Silvia Marques, autora do livro ''A História do Penteado'' (editora Matrix), o dilema de optar pelo comprimento dos cabelos atormenta as mulheres desde priscas eras. De Afrodite, deusa loira da beleza e do amor, passando pelo cabeleira de Maria Madalena ao curtinho de Joana D'Arc, muitas tendências rolaram nas águas da história. ''O cabelo é o símbolo máximo de feminilidade. Quando o corte é feito contra a vontade, como demonstração de força e poder, é mais do que um gesto de brutalidade, é uma mutilação'', fala a autora, citando os filmes ''Malena'' e a ''A Filha de Ryan'', nos quais o terrível castigo é imputado a prostitutas e adúlteras.
Nos anos 1960, as tesouras deram um baile. Na vanguarda, as atrizes Mia Farrow e Jean Seberg, a estilista Mary Quant e a modelo Twiggy sucederam as ''gamines'', como eram chamadas as mulheres de cabelos curtinhos e de aparência frágil, assim como as atrizes Leslie Caron e Audrey Hepburn, ambas no começo de carreira.
Este ano, a top Isabeli Fontana causou impacto ao surgir lindíssima como uma gamine vamp, na campanha de maquiagem da Chanel. Teria a top dado adeus às longas madeixas? Nada disso, a produção usou uma peruca: ''Mudanças radicais são sempre avaliadas em função da imagem da modelo e contratos de trabalho'', lembra a agente da top, Monica Marques, da agência Mega.
Assunto que dá pano para manga, os fios sobem e descem ao sabor da moda, mas só no resto do planeta. No Brasil, ai do cabeleireiro que cortar um centímetro a mais do cabelo. É chilique, choro ou motivo para se esconder na certa.
Efeito lifting
O cabeleireiro Marco Antonio de Biaggi, expert em cabelos compridos (e blondies), comenta esse apego à cabeleira: ''Você está falando com a pessoa certa. Atendemos 300 clientes por dia e todas elas querem seduzir e mostrar poder por meio dos cabelos longos, lisos, repicados e com boa textura. É só pensar em Adriane Galisteu, Luana Piovani, Aline Morais, Juliana Paes, Carolina Dieckmann, Isabeli Fontana, Maria Fernanda Cândido, que conciliam exuberância e personalidade'', fala Marco, que, em 20 anos de carreira, produziu 700 mulheres para capas das principais revistas femininas, todas de cabelões. ''Acho que das 21 capas que fiz para a revista Nova, apenas em 3 delas as atrizes estavam de cabelos curtos.''
Dos salões para o visagismo, um outro ponto de vista. Segundo Philip Hallawell, autor de ''Visagismo Integrado - Identidade, Estilo e Beleza'' (Ed. Senac), a identidade pessoal também se revela por meio do cabelo, e o jogo de comprimentos possibilita leituras que vão além do formato do rosto.
''O cabelo no ombro tem ação neutra. Abaixo, dá sensação de peso, de que a mulher necessita de apoio financeiro ou emocional, além da conotação de submissão, ao querer agradar ao homem. Se for liso e reto nas laterais do rosto, como entre dois trilhos, denota controle, rigidez. Longo, com ondas largas, e repicado, sinaliza sexualidade à flor da pele. Quanto mais curto, maior a independência, leveza, dinamismo. Com relação à estética, por volta dos 30 anos aos primeiros sinais de envelhecimento, o curto promove uma ação visual para cima, como um lifting, enquanto o cabelo pesado dá um efeito contrário''.
Hallawell recorre à ciência para entender uma contradição típica da brasileira nos dias atuais, ou seja, assumir posições de comando ou reproduzir o que vê nas capas das revistas? ''As imagens provocam uma resposta emocional antes que sejam interpretadas. A avalanche de fotos sensuais e glamourosas é absorvida de maneira inconsciente e subliminar, e a mulher associa beleza exclusivamente à sensualidade. Mas será adequado ser sensual durante 24 horas? Conteúdo e valores como criatividade e dinamismo também são uma forma de beleza''.


