Cabecinhas turbinadas
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quinta-feira, 23 de maio de 2002
Mary Persia Agência Estado 
Elas interessam-se precocemente por números, letras e idéias. As crianças superdotadas (ou portadoras de altas habilidades, como vêm sendo chamadas nos últimos anos) são curiosas, têm grande capacidade de concentração e independência de pensamento, entre outras características. Mas são, acima de tudo, crianças. O mito do geninho não existe, pontua a psicóloga Christina Cupertino, coordenadora do Programa Objetivo de Incentivo ao Talento (Poit), do Colégio Objetivo.
O programa da escola, localizada na cidade de São Paulo, reúne alunos com habilidades especiais, mas não os exclui do convívio com outras crianças da mesma idade. Além de criar oportunidades para que eles desenvolvam seus talentos, o Poit funciona também como um ponto de encontro. Na prática, um lugar para Vitor associar-se a Daniel em suas empreitadas.
Os dois, Vitor Gracia, 10 anos, e Daniel Bueno, de 11, estão na mesma classe da quinta série. Mas, na sala de aula, têm os mesmos direitos e deveres do restante da turma. Já no horário reservado ao programa especial, fora do período de aula, eles têm carta branca para fazer o que quiserem ou quase. Aqui, você fica mais independente. Tem professora, mas ela não desenha para você, não faz o boneco nem o cenário. Ela diz: Façam isso, utilizando tal material. E a gente faz o que quiser, empolga-se Vitor, há cinco anos no Poit.
O desenho, o boneco e o cenário dizem respeito à paixão de Vitor: animação. Me interessei porque você faz um filme com uma coisa que não tem vida, conta ele, que adora criar personagens, seja em massinha ou argila.
Daniel também gosta de fazer filmes de animação, sempre com seu amigo-parceiro-sócio. Ele está aprendendo a fazer animações em 3D, mas, enquanto as atividades não enveredam por esse caminho, diverte-se com o quadro a quadro ao lado de Vitor, que já incorporou a câmera de vídeo da mãe às suas ferramentas de trabalho. Mas está toda estourada, queixa-se Vitor. Vamos ter de juntar uns três anos de mesada para comprar outra.
Estímulo Christina lembra que todo esse estímulo ao desenvolvimento de habilidades é muito bem-vindo, mas deve-se tomar cuidado com o exagero. O erro mais comum é sobrecarregar a criança, torná-la uma criança com agenda de executivo. Deve-se criar boas condições para ela, mas sem cobranças, considera.
Para Marina, 4 anos, e Felipe, de 2, esses estímulos estão no dia-a-dia, de forma natural. Eles são filhos de Joel Augusto Ribeiro Teixeira, 33, e Marcia Hartmann Franco Teixeira, 32. O neurocirurgião e a neuropediatra são integrantes de um seleto grupo de cérebros: os 2% mais turbinados do mundo. Ele é coordenador geral da Mensa Brasil, braço nacional de uma sociedade nascida na Inglaterra em 1946, e ela é responsável pelo projeto Giften Children, seção infantil da entidade.
Provavelmente por uma associação de genes e estímulos, Marina e Felipe, segundo os pais, também têm demonstrado possuir altas habilidades. Mas ficamos com o pé atrás em falar, pois vão achar que é coisa de pai coruja, diz Joel. Sei que eles têm muito chão pela frente e estão indo bem até por isso não os testei ainda, complementa Marcia. Hoje em dia, acredita-se que a inteligência seja mais genética do que se acreditava antes, diz a neuropediatra.
Bianca Lis Endo, 12 anos, acha que certas habilidades especiais podem mesmo ser herdadas. Aos 12 anos, frequentando a oitava série e também aluna do Poit, ela cita a mãe, psicanalista, e o pai, engenheiro eletrônico. Acho que herdei um pouco de cada. Meu pai é mais lógico e, minha mãe, mais criativa.


