Os números são diferentes, controversos, mas revelam a existência do problema: depressão e estresse em crianças e jovens. Segundo a Organização Mundial de Saúde, pelo menos uma em cada 40 crianças fica deprimida; pelo menos um em cada dez adolescentes sofre de depressão significativa. Já o Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) calcula que cerca de 5% de crianças e jovens são afetados pela depressão.
Os casos de estresse são mais frequentes: estatísticas americanas revelam que 8 a cada 10 crianças que passaram por consultas médicas estavam estressadas. O estresse implica na redução das fontes de prazer. Pesquisadores da USP, em 1998, mostraram que 2/3 das crianças entre 6 e 14 anos que vivem nas grandes cidades apresentam sintomas. Asma, resfriado, dores de cabeça constantes e alergias muitas vezes são decorrentes do estresse, que tem em seus efeitos mais conhecidos a fragilidade no sistema imunológico á e em situações mais extremas pode levar à depressão.
Pais em Paz Mas o que pais e educadores podem fazer para prevenir o estresse e a depressão em crianças e jovens? Atento ao sofrimento dos pequenos e de seus pais, o grupo Pais em Paz traz a Londrina o psicólogo de Campinas (SP) Ivan Capelatto. Ele faz uma conferência no dia 8 de dezembro, às 20 horas, no anfiteatro maior do Centro de Ciências Biológicas da UEL (CCB).
Capelatto vem a Londrina há anos para ministrar palestras e cursos. Em 2001, ele lançou o livro ''Diálogos sobre a afetividade: o nosso lugar de cuidar'', produzido pelo Pais em Paz a partir de quatro entrevistas sobre família que ele concedeu à Rádio Universidade FM (emissora da Universidade Estadual de Londrina). O grupo teve sua origem com integrantes da ONG Vir a Ser, em 1997, e reúne duas psicólogas, um pediatra, uma psicopedagoga, uma professora e uma jornalista.
No livro, ele alerta que o excesso de atividades desenvolvidas pelas crianças tem aumentado os casos de estresse. ''Em psiquiatria, até uns 15 anos atrás, nos nunca tínhamos ouvido falar de estresse infantil ou depressão na infância. Mas hoje temos encontrado crianças de até 6 anos com esses problemas.
''Vai para a computação, vai para isso, vai para aquilo e, quando chega no final do dia, a criança não brincou, está cansada'', afirmou. As pesquisas e diagnósticos em depressão e estresse em crianças e jovens podem mesmo ser consideradas relativamente recentes: somente com a terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (publicado em 1980), a psiquiatria reconheceu que crianças e adolescentes podem ficar e ficam deprimidos, assim como os adultos. Antes, infância e adolescência eram vistas como períodos associados somente ao prazer e à despreocupação. Assim, não se justificaria o quadro de depressão e estresse, mas esse entendimento mudou.
Transtornos do sono Estudos vêm sendo realizados e confirmam o sofrimento de crianças e jovens. Os médicos estariam detectando mais casos principalmente por estarem mais atentos sobre os sintomas e mudanças no comportamento dos pequenos. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, associa transtornos do sono aos marcadores biológicos para detectar precocemente a depressão na infância. O estudo foi realizado no Departamento de Psicobiologia e revelou que pelo menos 75% dos pacientes com depressão apresentavam perturbações do sono.
Outra pesquisa recente, realizada na Faculdade de Educação da Unicamp, mostra que em Campinas a depressão infantil atinge 3,5% das crianças da rede pública. O estudo envolveu 169 meninos e meninas de baixa renda da região Sul de Campinas e mostrou que seis crianças apresentavam a doença. O estudo foi feito pela psicóloga Miriam Cruvinel, autora da dissertação de mestrado ''Depressão infantil, rendimento escolar e estratégias de aprendizagem em alunos do Ensino Fundamental''.
Brincar e brincar Mas ainda é preciso mais atenção de educadores, pais e outros profissionais para conhecer e poder amenizar os prejuízos físicos e mentais causados às crianças. Entre os principais sintomas da depressão infantil estão apatia, insônia, fobias, falta de apetite, além de agressividade, hiperatividade e queda no rendimento escolar. Apesar dos sintomas aparentes, muitas vezes educadores e pais têm dúvidas sobre como agir e o que fazer para buscar ajuda.
Um dos caminhos é estimular a brincadeira. ''As crianças precisam brincar e brincar com outras crianças, construir coisas com água e terra, jogar bola'', defende Capelatto. Além do brincar, uma das formas de combater, cuidar e prevenir estresse e depressão é usar o espaço da imaginação e da fantasia. Estudos de diferentes áreas do conhecimento (como neurologia, psicologia, pedagogia e ciências sociais) já demonstram que a capacidade de inserção social necessária para o desenvolvimento das relações humanas; a capacidade para aprender com a experiência; a aquisição de valores éticos e o desenvolvimento da afetividade dependem de organizações psíquicas e cognitivas que a criança adquire a partir da experiência com o brincar e com a fantasia.


Serviço: Palestra com Ivan Capelatto: ''Depressão e stress em crianças e jovens. O que pais e educadores podem fazer para prevenir e cuidar'', dia 8 de dezembro, no Anfiteatro maior do CCB-UEL (Pinicão) Fone: (43) 3342-6262
Números
- A depressão ocorre em cerca de 5% das crianças e adolescentes.
- Somente há 20 anos os médicos descobriram que criança também
fica deprimida.
Sintomas
- Acha a vida sem graça e pensa que tudo vai dar errado.
- Fica de mau humor, desanimado, ''para baixo''.
- Não quer fazer as coisas de que mais gosta.
- Fica com preguiça de brincar, passear e até de ir a festas.
- Tem medo de coisas que antes nem incomodavam.
- Acha que ninguém gosta dele e prefere ficar sozinho.
- Acha que todo mundo pensa que ele é burro ou feio.
- Fica triste e ansioso e nem sabe direito o motivo.
- Come mais do que antes ou então nem sente fome.
- Não consegue dormir ou então dorme demais.
- Vive no ''mundo da lua'', superdistraído.
- Fica irritado por qualquer coisinha.
- Não tem vontade de ir à escola.
Dores
É comum sentir dores no corpo. Mesmo sem ter nada de errado com a barriga, ela pode doer. Os médicos dizem que é como se a pessoa transferisse o desânimo, o medo e a tristeza para a barriga.
- Dor de cabeça
- Dor na barriga ou aperto no peito
Cérebro
- Algumas substâncias que existem no cérebro para controlar as funções, chamadas neurotransmissores, ficam alteradas.

Fonte: Instituto de Psiquiatria da USP (publicado originalmente na Folhinha, suplemento infantil da Folha de S.Paulo)

SERVIÇO
Palestra com Ivan Capelatto: ‘‘Depressão e stress em crianças e jovens. O que pais e educadores podem fazer para prevenir e cuidar’’, dia 8 de dezembro, no Anfiteatro maior do CCB-UEL (Pinicão) Fone: (43) 3342-6262

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