Brincando de aprender
Rosângela Vale
Para a maioria dos alunos do ensino fundamental, poesia é apenas um capítulo do livro de Português. Versos de mestres como Cecília Meirelles e Carlos Drummond de Andrade são memorizados para garantir uma boa nota na prova mas, depois, vira-se a página e a matéria é outra. O contato com estrofes e rimas acaba se limitando a uma breve aula. Em Londrina, uma escola inverteu essa história e fez da poesia uma das principais formas de ensino.
Lá, versos fazem a ponte entre várias disciplinas, estimulando a criança a construir seu próprio aprendizado. Depois de uma visita ao Iapar, por exemplo, que é uma aula de Ciências e também de História do Município, os alunos verbalizam o que aprenderam através de poesias, explica Maria Antônia Fantaússi Rocha, diretora da Escola Educacional, que trabalha com a metodologia Sócio Construtivista, atendendo crianças de 2 anos até a 5ª série, com projeto de implantação do ensino fundamental até a oitava. A partir do ano que vem, passa a oferecer também o Berçário.
É realmente desde muito cedo que os pimpolhos aprendem a gostar das rimas dentro da sala de aula. Para estimular a oralidade, eles memorizam travas-línguas (Um prato de tigre para dois tigres tristes), parlendas (Um dois, feijão com arroz) e quadras poéticas (Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão...). O desenvolvimento da fala é nitidamente perceptível de uma etapa para outra da educação infantil. Com quatro anos, eles já declamam, sem titubear, longas parlendas como Hoje é domingo/Pé de cachimbo/Cachimbo é de barro/Bate no jarro... Assim, vai se introduzindo também a interdisciplinariedade, pois através do conteúdo dos versos as crianças têm noções de outras matérias, como matemática, por exemplo.
Maria Antônia explica que a metodologia utilizada tem como complemento a Psicomotricidade, que envolve três técnicas: trabalho corporal, expressão motora e verbalização. Assim, o aluno começa a comprender o significado de coletividade e a importância de respeitar a si e ao outro. O objetivo é promover a capacidade de atenção interiorizada, a expressão das emoções e, consequentemente, o desenvolvimento do potencial criativo. O resultado é a integração entre o emocional, o cognitivo e o social. Formamos um sujeito autônomo, que cobra seus direitos, faz seus deveres, é dono da própria fala e da própria história, teoriza a diretora.
Descobrindo de forma lúdica o significado das palavras, os alunos iniciam a alfabetização livre das regras de ortografia, que são introduzidas a partir do 1º ano. É quando também começam a criar seus primeiros versos, como os de Guilherme Lopes Tanaka: Papaizinho queridinho/Quando vai no shopping/Me compra um lanchinho. A cada ano, as estrofes aumentam e as rimas traduzem o mundo que vai se ampliando aos olhos de cada um. Com sensibilidade, descrevem suas descobertas, como na bela poesia de Camila Ribeiro Felix, aluna 4ª série: Eu faço barulho na janela/Eu imito o barulho do mar/ Faço qualquer barulho/ Que eu posso imaginar/Eu escondo a lua/Eu escondo o sol/Eu escondo lindas flores e/Até um belo girassol/Eu escondo árvores/Eu escondo corujas/Adivinhou quem sou?/Sou sua amiga chuva.
Entre tantos autores, alguns de fato têm uma forte veia poética. É o caso de Larissa Maria Correia, da 5ª série. Seus versos sobre a seca do nordeste surpreendem (leia box). Gosto de falar sobre realidade, diz, afirmando que, com a poesia, ela aprende novas palavras porque é preciso pesquisar para escrever. A dificuldade depende do tema. Se o assunto é conhecido, passou na TV, sai rapidinho, dispara Larissa Barbetta Zanelatto, cujo poema sobre ética é uma lição de cidadania. Para deixar que preciosidades como estas acabem esquecidas em um caderno qualquer, a escola organizou um evento anual, batizado de Noite dos Poetas, onde alunos declamam suas poesias preferidas, que são encadernadas em um livreto. Já são seis edições. O próximo passo é a publicação.
A seca no Nordeste
Falta água nesta terra
Moro aqui no sertão
Passo muita necessidade
Eu, a família e o cão
O meu gado morre de sede
A seca se espalha na plantação
É tão grande a tristeza
Que é de cortar o coração
Seu moço essa história é velha
Dizem que tem solução!
É o que os homens prometem
Em época de eleição
As crianças aqui seu moço
Não tem infância não
Só trabalham e espiam
Se um pingo cai no chão
Nós vamos levando a vida
A Maria me dá dó,
Neste sol quente e ardente
O sertanejo, seu moço, é um só.
Larissa Maria Correia, 5ª série
Ética
Ter ética é fazer justiça
Diálogo e solidariedade
Respeitar pais e amigos
Ser irmão de toda comunidade
Não importa o lugar
O horário, a cidade
A ética tem que estar
Presente na sociedade
Se você já sabe o que é ética
Vamos logo praticar
É com respeito e amor
Que o mundo vai melhorar.
Larissa Maria Barbetta Zanelatto, 5ª sérieEscola londrinense estimula alunos a interiorizar o aprendizado compondo poesias
fotos: Paulo WolfgangA oralidade começa a ser estimulada desde a educação infantil, quando as crianças começam a descobrir, de forma lúdica, o significado das palavrasA cada ano, as estrofes aumentam e as rimas traduzem o mundo que vai se ampliando aos olhos de cada umLarissa Maria Correia e Larissa Barbetta Zanelatto: realidade brasileira e lição de cidadania





