Brincadeiras que curam
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Brincadeiras, risos, historinhas, riscos e rabiscos. Essa é uma receita diferente de tratamento médico para crianças que estão hospitalizadas. O que se espera é dar a esses pequenos um pouco de alegria e descontração que minimizem a dor, o sofrimento, o medo, as agulhas, a frieza do ambiente hospitalar.
Já está comprovado que os impactos da internação são negativos para o processo de recuperação da saúde das crianças, por isso vem crescendo nos hospitais e instituições de saúde as atividades de recreação. O serviço, segundo Lúcia Bruniera Brunelli, a recreacionista do Hospital Universitário, e responsável pelo setor há 16 anos, busca junto às crianças internadas, aliar-se aos aspectos sadios, estimulando capacidades e funções que não foram prejudicadas pela doença. ''Procuramos converter o ambiente de tristeza num lugar interessante, convidativo e alegre''.
Lúcia terminou este ano uma especialização em lazer pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde apresentou o estudo ''O brincar: uma estratégia viável de humanização no ambiente hospitalar''. O objetivo do trabalho, para ela, é despertar a reflexão sobre a importância da atividade nos hospitais e a melhoria do desempenho desses profissionais. Lúcia destaca que é escassa a bibliografia sobre o assunto e que não há nem mesmo estudos comparativos. Por isso, ela consultou as experiências de outras instituições de saúde no País.
Laços de confiança O brinquedo no hospital, segundo Lúcia, além da função recreativa e educacional, tem valor terapêutico. A criança cria laços de confiança com quem brinca com ela, com isso, o diagnóstico e a eficiência do tratamento ficam mais precisos. ''Pelo brincar a criança se esquece das condições de doença e do tratamento em que se encontra''.
As atividades de recreação realizadas no HU, conta Lúcia, envolvem a confecção de jogos, brinquedos, brincadeiras, oficinas de histórias e de fantoches, teatros, entre outros. São atendidas todas as crianças de 0 a 12 anos internadas nos setores de pediatria, quimioterapia e moléstias infecciosas pediátricas. O trabalho se estende até mesmo às crianças presas ao leito.''Levamos atividades que permitam a participação delas'', explica.
Pela rotatividade das crianças, as brincadeiras previstas têm a duração de um dia. ''Todas as peças produzidas são levadas para casa pelos menores''. Ela destaca que é preciso também muito cuidado na escolha dos materiais de trabalho. Pelos riscos de contaminação oferecidos pelo ambiente são utilizados produtos laváveis ou de fácil higienização.
Lucia destaca que a falta de um espaço próprio dificulta e até limita parte das atividades. A recreação fica em uma sala ao lado do setor de pediatria, que é utilizada também para as refeições dos acompanhantes das crianças internadas, e funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas, respeitando os horários de alimentação. Ela está pleiteando junto à direção do HU uma sala específica para o serviço. ''Todo o material precisa ser guardado nesses períodos'', lamenta.
Lúcia destaca ainda que é importante a qualificação do recreacionista. ''É preciso compreender as dificuldades e necessidades da criança internada''.
A equipe de recreação é multidisciplinar e envolve um profissional das áreas de nutrição, psicologia, enfermagem, fisioterapia, pediatria, assistência social, coordenados pelo cirurgião pediatrico Lúcio Tedesco Marchese. O grupo se reúne quizenalmente para avaliação das atividades. n


