Brigadeiro gourmet
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Fernanda Brambilla<br> Agência Estado 
Em 1945, eleitores do brigadeiro Eduardo Gomes promoviam festas para fortalecer a candidatura do militar às eleições para presidente da República. Entre as guloseimas que as moças preparavam para Gomes, que fazia o tipo bonitão, estava um doce em forma de bolinha e preparado com chocolate. O militar perdeu o pleito. Mas o doce em sua homenagem ficou conhecido pelo nome de sua patente: brigadeiro. Hoje, 65 anos depois, essa delícia brasileira ganhou roupagem e condimentos novos, só que à frente de outra campanha. A doceira Juliana Motter, de 33 anos, não é política, mas defende a causa do brigadeiro com fervor. No recém-lançado O Livro do Brigadeiro, 96 páginas, editora Panda Books (www.pandabooks.com.br), ela une argumentos nacionalistas e receitas incrementadas, numa ode de fazer babar até os menos chocólatras, e conta como passou a viver de brigadeiro, literalmente.
Foi o hábito de preparar os doces nas festas dos amigos que levou Juliana a ver sua especialidade como forma de ganhar dinheiro. Na manhã seguinte a um desses encontros, a moça, que é formada em Jornalismo, recebeu, surpresa, o primeiro pedido para uma encomenda. Uma mulher me ligou, pedindo mil brigadeiros. Eu nunca tinha pensado em vender. Mas acabei aceitando. Saí cedo do trabalho e passei a madrugada cozinhando, lembra. A coisa pegou e Juliana passou os dois meses seguintes numa jornada dupla de trabalho: na redação de dia e no fogão à noite. Resultado: largou o jornalismo após dez anos de carreira. Pedi demissão para vender brigadeiro e ouvi minha chefe me chamar de louca, conta.
Hoje, dois anos depois, Juliana comanda uma equipe de 12 doceiros que dão conta, em quatro fogões, dos 3 mil brigadeiros vendidos diariamente em seu recém-inaugurado ateliê, o Maria Brigadeiro, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Ali, os clientes podem acompanhar o preparo do doce. A partir do conceito de brigadeiro gourmet, a guloseima ganhou chocolates finos, com porcentagens altas de cacau - no mínimo, 32% -, além de manteigas extras (com mais leite) e importadas. Tudo pelo sabor.
As inovações se estendem ao cardápio, com mais de 40 variações. Limão siciliano, damasco, pistache e avelã são alguns dos sabores que a mistura tradicional de leite condensado, chocolate e manteiga ganhou. E o conhecido granulado, que cobre as bolinhas de chocolate, mudou. Aquilo é uma heresia, um desrespeito. Um monte de conservante e açúcar, reclama Juliana. Os dela são enrolados em raspas de chocolate.
Como profissional de brigaderia, Juliana viaja duas vezes ao ano para feiras de chocolateiros pelo mundo, de onde traz amostras para o doce, além de manteigas de diferentes países. Brigadeiro precisa de ponto. Cada variação de ingrediente interfere muito, explica ela, que já conquistou clientes famosos, como as atrizes Deborah Secco e Flávia Alessandra.
A moça, que antes levava seus doces, de graça, para festinhas de amigos, já foi contratada para preparar os brigadeiros para um evento na Daslu. Aqui no Brasil, a gente dá muita atenção para trufa, creme brulée, e outras coisas da pâtisserie francesa. Mas o brigadeiro também pode ser sofisticado, afirma. A paixão é tamanha, que nem os 10 quilos que Juliana ganhou nessa empreitada conseguiram desanimá-la. A prova maior dessa devoção veio há quatro meses, quando a doceira fraturou o pé e ficou de cama. Meu pai perguntou se eu queria algo. Adivinha o que eu pedi?, ri. Esse brigadeiro ela comeu quente, ainda na panela.
Brigadeiro Tradicional
Ingredientes: 1 lata de leite condensado, 4 colheres (sopa) de chocolate em pó com alta porcentagem de cacau (ou 8 colheres de raspas do seu chocolate favorito) (jamais use achocolatado), 1 colher de manteiga sem sal, raspas de chocolate para confeitar.
Preparo: despeje o leite condensado na panela. Acrescente o chocolate em pó (ou as raspas de chocolate), misture bem, junte a manteiga e leve ao fogo baixo, mexendo sempre até desgrudar do fundo da panela (mais ou menos uns 12 minutos). Quando estiver no ponto, transfira a massa para um recipiente untado com manteiga. Deixe esfriar, molde as bolinhas (30 unidade), passe-as em raspas de chocolate ao leite ou meio amargo e acomode-as nas clássicas forminhas de papel plissado. Nota da doceira: Meu brigadeiro favorito é este, clássico, porém, com chocolate fino. É também o mais vendido. E está na foto de capa do livro de Juliana Motter.
Bolo de Brigadeiro
Ingredientes: 2 xícaras de chá farinha de trigo, 2 xícaras de chá açúcar, 1 xícara de chá de chocolate em pó, 1 colher de sopa de fermento em pó, 1 pitada de sal, 1 xícara de manteiga sem sal, 1 xícara de água fervente.
Cobertura: 2 receitas de Brigadeiro Tradicional, raspas de chocolate, e lata de creme de leite.
Preparo: em uma vasilha grande coloque os ingredientes secos: farinha, açúcar, chocolate, fermento e sal. Faça um buraco no meio e junte os ingredientes líquidos: os ovos, a manteiga derretida e a água fervente. Bata imediatamente na batedeira para que os ovos não cozinhem e até a massa ficar homogênea (cerca de 5 minutos na velocidades máxima). Despeje a massa na forma untada com manteiga e enfarinhada, leve ao forno médio pré-aquecido por 35 minutos ou até que esteja assada. Teste com palito. Cobertura: faça o brigadeiro e, quando estiver no ponto, acrescente o creme de leite e continue mexendo por mais 5 minutos e desligue o fogo. Corte o bolo no sentido horizontal, recheie e cubra com o brigadeiro morno e decore com raspas de chocolate.


