Que pé de chinelo, que nada... A expressão criada para definir os menos abastados já não faz mais juz ao calçado que a originou. Além de chegar ao topo da pirâmede social tupiniquim pisando em iates e clubes de primeira linha o chinelinho que não deforma, não solta as tiras, nem dá chulé, passeia agora pelo Central Park, dá pinta nas margens do Rio Senna e caminha nas ruas de Sydney. Não se trata de um ou outro brasileiro em férias por estes lugares. O mundo descobriu as Havaianas. Produto 100% nacional, elas viraram objeto de desejo globalizado nos pés de top models famosas e agora já são comercializadas em 50 países. Ano passado, a Alpargatas vendeu nada menos que cinco milhões de pares no exterior.
Tamanho sucesso rendeu, este mês, uma matéria no ''The Wall Street Journal'' sobre a história da marca que está fazendo a cabeça dos novaiorquinos. Eles desembolsam US$ 12 por um par de Havaianas no Soho (aqui elas são vendidas a US$ 3). Mas um exemplar com cristais Swarovski, que já tem lista de espera, pode chegar a US$ 70,00 por lá. A artista multimídia brasileira Rose Miasaki, 37 anos, mora no Soho há oito anos e assiste de camarote com os pés devidamente calçados numa das oito Havaianas compradas no Brasil à chegada dos chinelos nas descoladas vitrines do bairro. ''Sempre usei, mas confesso que fiquei mais fã depois que me mudei para lá. Manhatan é muito quente no verão e a gente anda muito a pé'', observa ela, que costuma ir trabalhar de chinelos.
Mas engana-se quem pensa que a procura pelas Havaianas no exterior se restringe aos meses de verão. Segundo o The Wall Street Journal, os ucranianos usam Havaianas o ano todo, com meias, o que levou os distribuidores europeus a sugerir ao fabricante um modelo de inverno.
Batizadas assim porque nos anos 60 o Havaí era sinônimo de sol, calor e glamour (era lá que os americanos passavam as férias), as Havaianas estão tão inseridas no cotidiano brasileiro que o governo já incluiu os chinelos, junto com o leite, o pão e o feijão, na cesta básica usada para calcular o custo de vida.
Muita sola foi gasta desde o lançamento do primeiro modelo, em 1962, com palmilha branca e tiras azul clarinhas. A produção, de mil pares por dia naquela época, chegou a mais de 120 milhões no ano passado. Resultado, sobretudo, da segmentação de mercado, que começou na década de 90, com a criação das Havaianas Top, de uma só cor, solado mais alto, destinadas a um público mais sofisticado.
O povo da moda, então, se rendeu. O frisson foi tanto que as Havaianas se tornaram cult: viraram pingente de ouro e diamantes, estampa de camiseta, vale entrada para festa de inauguração e brinde de final de ano distribuído pela Daslu. Vieram, em seguida, os modelos Surf, Brasil, Clubes (com bandeirinhas de times de futebol), Kids, Fashion, Floral, Alamoana (masculina, com estampas estilizadas) e as recentes Style, com duas cores, de solado quadrado, e Trekking, única papete de borracha do mundo.
A variedade de opções alargou ainda mais a vocação democrática do chinelo, que é hype e popular ao mesmo tempo. Está nos pés de presidentes e índios, gente fashion e gente da roça, combina com praia e asfalto, com o ''dolce far niente'' e com vida dura. Nos cantos mais recônditos do Brasil, as Havaianas tradicionais ainda são vendidas dentro de saquinhos plásticos, em qualquer mercadinho de esquina. Para o empresário Rafael Bertin, 27 anos, essa facilidade de encontrá-las em qualquer lugar é uma das vantagens de seus apreciadores. ''Dá para comprar em qualquer lugar e é baratinho'', observa.
Além de companhia inseparável no clube e nos poucos momentos de relax, as Havaianas azul-marinho estão sempre com Rafael durante aquela cervejinha de fim de tarde no boteco. São fundamentais também depois do esporte. ''Faço triatlon e o pé está sempre estourado. Nos dias que sinto muita dor, ganho massagem da namorada e, depois, Havaianas'', conta ele, adepto do chinelo por causa da simplicidade do design.
A modelo londrinense Fabiana Semprebom faz parte do time de tops brasileiras que faz das Havaianas um refresco para os pés depois dos desfiles. Segundo ela, a mania pegou também entre as gringas. ''Lá fora, elas sempre perguntam onde comprar'', conta. Morando em Nova York há dois anos, Fabiana não dispensa os chinelos ela tem oito modelos nem mesmo para badalar. ''Já fui a uma danceteria de Havaianas. Chegando lá, todas as meninas estavam de chinelos. E a gente não tinha combinado nada'', lembra a modelo, que no próximo mês poderá ser vista na campanha da grife Armani Exchange. n

mockup