Brasil, campeão na vaidade
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quinta-feira, 24 de outubro de 2002
Adriana Carranca<BR>Agência Estado 
No quesito beleza, o Brasil ocupa posição de destaque não apenas por exibir algumas das mulheres mais lindas do planeta com exemplares mundialmente conhecidos como a top Gisele Bundchen , mas por ter também as mais vaidosas. É o País que mais realiza cirurgias plásticas por número de habitantes em valores absolutos, perde apenas para os Estados Unidos. Só no ano passado, foram 350 mil cirurgias, 50% delas estéticas, uma a cada três minutos. Entre essas, 40% foram lipoaspirações e 30%, intervenções para aumentar ou diminuir os seios. O País lidera o ranking latino-americano, e é o segundo do mundo, em aplicações de Botox, medicamento para reduzir rugas de expressão.
São dados relevantes para um País com renda per capita quase dez vezes menor do que a americana. O mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos nacional também vai muito bem. Atingiu um crescimento real de 6,4%, enquanto a indústria em geral teve queda de 0,6%.
E não são apenas brasileiros mais abonados que alimentam a indústria da vaidade. A classe média invadiu os consultórios e clínicas de estética e compra mais a cada ano. Um exemplo disso é a Avon, marca de produtos de beleza considerados mais populares, que dobrou o seu faturamento: nos últimos cinco anos cresceu 73,6% em vendas de produtos. Em 2001, faturou R$ 2,2 bilhões e vendeu 450 milhões de unidades, graças a um exército de 770 mil vendedoras nos últimos três anos, o Brasil foi o país com mais alto desempenho na corporação.
Preço e avanço Especialistas tentam explicar os números com a maior competitividade entre as empresas, que tornou os preços mais acessíveis, ou o avanço da medicina estética, com técnicas mais seguras e menos invasivos, entre outros motivos. Nenhum deles, no entanto, é mais forte do que simplesmente a busca pela beleza, crescente também entre os homens, que já são 30% dos pacientes das clínicas de estética e de cirurgia plástica no Brasil há uma década, não passavam de 5%.
Pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, com 5 mil homens e mulheres, entre 18 e 64 anos, no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Austrália e França, dá a dimensão da vaidade verde-amarela. Cerca de 61% dos entrevistados em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife consideram a atração física muito importante para prosperar na sociedade atual, contra 26% nos outros países. Os brasileiros são os que mais aceitariam submeter-se a tratamentos estéticos (75%) os Estados Unidos vêm em segundo lugar com 41% apenas.
Mais jovens Pelo menos três respostas foram comuns aos entrevistados dos vários países: em média, 82% apontam a gratificação pessoal como principal razão para se submeterem a procedimentos estéticos, seguida pela melhora da auto-estima (75%) e pelo desejo de parecerem mais jovens (51%). A arquiteta Gisele Muralli se encaixa nesse perfil. Com 41 anos, uma cirurgia de lipoaspiração de onde foi aproveitada uma pequena quantidade de gordura para aumentar os lábios, duas aplicações de Botox e cinco peelings, ela não trocaria mais a aparência de hoje pelo corpo e rosto de 20 anos atrás. ''Não quero ter 20 anos, quero estar bonita e parecer mais jovem aos 40'', diz ela, que já pensa em aumentar os seios e afinar o nariz.
Gisele tirou da vitória contra um câncer de tireóide, há 5 anos, o incentivo para levar uma vida mais saudável. ''Eu sempre fui gordinha e um tanto sedentária. Hoje, tenho uma alimentação balanceada, faço ginástica todos os dias. Acho que as pessoas têm de se ajudar.''n
Aplicação de Botox
O País é, hoje, referência em cosmiatria, ramo da dermatologia voltado apenas para a estética. Em São Paulo há pelo menos uma dezena desses especialistas, entre eles a médica Ligia Kogos, cujo consultório em São Paulo, onde trabalha com nove dermatologistas assistentes, é campeão na América Latina em aplicações de Botox, segundo o Laboratório Allergan, fabricante do produto são 250 aplicações por mês.
Responsável por corrigir linhas de expressão por meio da paralisação temporária dos músculos, o Botox, vedete da cosmiatria atual, teve seu uso cosmético aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) apenas em abril deste ano, embora venha sendo usado como com essa finalidade há quase uma década no Brasil e nos Estados Unidos.
No total, a médica chega a atender 150 pacientes por dia seu cadastro soma 30.668 clientes, entre os quais pessoas com mais de 90 anos. Para ela, a vaidade entre homens e mulheres cresce na mesma proporção que a expectativa de vida dos brasileiros, hoje de 68,6 anos, segundo o último censo do IBGE há no Brasil 1,8 milhão de pessoas acima dos 80 anos. ''Os brasileiros estão vivendo mais e querem permanecer jovens por mais tempo. Eles envelhecem, mas interiormente se sentem da mesma forma de antes, querem preservar sua sexualidade, manter-se no mercado de trabalho, viver como pessoas comuns. Quando se olham no espelho, no entanto, não se reconhecem'', diz. (A.C./AE)
Vaidosa obsessão
Por não se reconhecer no corpo 30 quilos mais pesado depois de duas gestações seguidas, a busca pela beleza tornou-se uma obsessão para a advogada Silvia Buonfiglio, de 38 anos declarados. Com 1,73, ela voltou à forma física 63 quilos à custa de um regime rígido que exclui pizza, refrigerantes e frituras. ''Me dou de presente uma fatia de bolo no sábado'', diz. Os músculos foram obtidos nas aulas com personal trainner que faz todos os dias, das 5h30 às 8h30 hoje, tem apenas 4% de gordura corporal, nível considerado muito baixo e não recomendado pelos médicos (um atleta, em ótima forma, tem 10% do gordura no organismo).
Sua rotina inclui visita diária ao cabeleireiro, onde faz as unhas e lava os cabelos, enxaguados com água mineral Perrier. ''O cloro que tem na água estraga os cabelos'', garante ela, que ainda visita o cosmiatra Otávio Macedo, um dos mais disputados do País, duas vezes por semana.
Uma vez por mês, toma injeções de vitaminas no couro cabeludo para deixar as madeixas mais volumosas, faz peeling e um tratamento corporal para estimular a produção de colágeno, responsável pela elasticidade da pele. Aplica Botox no contorno dos olhos a cada 4 meses, faz depilação à laser uma vez por ano e mesoterapia para disfarçar estrias e tratar a celulite. Uma vez por semana, uma esteticista vai à sua casa para sessões de gomagem e drenagem linfática, para livrar-se das célular mortas e melhorar a circulação sanguínea.
No banheiro, guarda um arsenal de beleza que inclui seis tipos de hidratantes para o corpo, fórmulas especiais para os olhos e as mãos, cremes anti-celulite e redutores de gordura localizada, três tipos de máscara para o rosto, cabelo e unhas. ''Deixo um creme especial para usar de madrugada do lado da cama, caso acorde no meio da noite'', diz. ''Quando viajo, levo pelo menos sete malas. Uma só para os cremes, outra para a maquiagem e outra com produtos para os cabelos. Sou tudo por beleza''. Bem-humorada, mas nitidamente insegura com relação à própria imagem, Silvia garante não se sentir bonita, mesmo gastando grande parte do orçamento com este objetivo. ''Sou de fino trato'', diz. (A.C./AE)


