''Toda mulher que tem filhos adolescentes precisa ter um cachorro em casa para que alguém fique feliz ao vê-la''. A frase é da escritora americana Nora Ephron (autora de roteiros de sucesso em Hollywood como 'Harry & Sally' e 'Sintonia de Amor'), em 'Meu Pescoço é um Horror', seu livro mais recente, que está entre as dez mais vendidos do Brasil.
A dica de Nora é uma piada sobre a difícil tarefa das mães, mas muitas pessoas têm levado o conselho a sério e adotado animais de estimação para alegrar a vida e, muitas vezes, driblar a solidão. São homens e mulheres que conquistaram a independência, têm suas próprias casas e empregos, mas ainda não formaram uma família. No lugar de companheiros e filhos entram os cachorros, gatos, passarinhos, peixes. Sem falar nas pessoas idosas, que depois que todo mundo sai de casa, ficam com os 'totós' como fiéis companheiros.
Segundo a psicóloga Marta Helena Guterres, isso é resultado da vida atribulada que muitas pessoas têm no mundo contemporâneo. ''Com a rotina que levamos hoje, cheia de atividades e obrigações, somos mais solitários e muitas relações antigas se perdem. Não temos mais contato com os vizinhos, as famílias diminuíram ou se distanciaram. Não temos mais alguém que nos ouça e isso faz falta. O ser humano é um ser relacional por excelência'', afirma.
Para compensar a falta de contato com o outro, ela diz que é natural as pessoas buscarem outros tipos de companhia, principalmente a dos animais de estimação. ''Um ótimo exemplo de como é importante para o homem a presença de outro ser é o filme 'Náufrago'. Nele, o personagem cria com uma bola de vôlei uma relação de amizade. Ele lhe dá um nome e se preocupa com esse 'amigo'. Algumas pessoas adotam plantas e uma maioria tem animais. É a maneira que cada um encontra de driblar a solidão'', diz.
Algums vezes o relacionamento com animais de estimação é tão intenso que o cachorro, ou gato, passa a ser visto como o melhor amigo do dono, principalmente no caso de pessoas idosas. ''Se relacionar com outro ser humano é mais difícil do que com um animal, que não contesta, não reclama, está sempre disposto e de bom humor. O humano apresenta problemas e diferenças que nem sempre estamos dispostos a enfrentar'', explica.
O problema talvez esteja em, como diz Marta, ''ter com o animal a única fonte de comunicação porque o relacionamento fica excessivo. A pessoa precisa ter outras relações, seja com o vizinho, com o cabeleireiro. É complicado, por exemplo, se relacionar somente com o marido, ter apenas um único amigo. Para qualquer caso, o excesso é ruim.''
Mas seria um exagero, segundo ela, dizer que pessoas que se relacionam mais com animais ou plantas não saibam se relacionar com seres humanos. A psicóloga diz que é possível que existam problemas relacionais com o semelhante, mas não há uma regra. ''Não concordo que haja uma tendência à sociopatia porque as pessoas convivam apenas com animais. Se essa questão existe, ela possivelmente é fruto de outro motivo, e não da presença dos animais. Se a pessoa não se incomoda com a falta de convivência com outro humano, está tudo bem.''

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