Bonitos e perigosos
Angela Raizer Barbosa
A partir dos 35 anos, os seios ficam mais vulneráveis ao câncer de mama. As chances de cura aumentam com o diagnóstico precoce aliado aos avanços da medicina
Desejados e glorificados pela sensualidade que despertam, os seios podem se transformar em hospedeiros de uma das mais comuns e perigosas doenças que acometem a mulher: o câncer de mama, a principal causa de morte entre as brasileiras. Dos quase 262 mil novos casos de câncer com previsão de ser diagnosticados neste ano no Brasil, o de mama será o principal a atingir a população feminina, sendo responsável, segundo projeções, por 31.200 novos casos e 7.300 óbitos. Esses números foram revelados pelo médico oncologista Paulo Pizão, professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e médico titular do Hospital A C. Camargo, durante o Workshop à Imprensa sobre Câncer de Mama promovido semana passada em São Paulo pela Rhodia Farma, subsidiária brasileira da Rhône-Poulenc.
De acordo com Paulo Pizão, as causas do câncer de mama ainda são desconhecidas, mas já se reuniu muito conhecimento sobre o assunto. Sabe-se que ele é raro antes dos 35 anos, mas acima desta faixa etária sua incidência cresce rápida e progressivamente. O histórico familiar constitui o fator de risco mais importante, especialmente se o câncer ocorreu em mãe ou irmã, e se teve desenvolvimento antes da menopausa. A menstruação precoce e a menopausa tardia (depois dos 50 anos) também estão associadas a uma maior incidência, assim como a primeira gravidez após os 35 anos de idade, revela o oncologista.
Outros fatores de risco são a exposição à radiação ionizante antes dos 35 anos, a ingestão regular de álcool e a reposição hormonal. Há ainda a probabilidade de existir maior risco em certos subgrupos de mulheres que usaram pílulas anticoncepcionais com dosagens elevadas de estrogênio ou por longos períodos. Por enquanto, a única certeza, de acordo com Paulo Pizão, é de que 80% de todos os tumores (existem mais de 100 tipos) são de causas evitáveis. O comportamento ideal seria manter uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras, não beber, não fumar, proteger-se de carcinógenos no ambiente de trabalho, não ingerir medicamentos desnecessários, evitar a exposição exagerada ao sol e outros fatores de risco já citados.
Auto-exame O câncer de mama é, provavelmente, o mais temido pelas mulheres devido a grande incidência e ao sofrimento físico e emocional que causa, afetando a percepção da sexualidade e a própria imagem pessoal. E o diagnóstico precoce ainda é um desafio porque, na maior parte do tempo, a doença cresce de forma silenciosa e só será detectada quando atingir um centímetro, o que corresponde a um bilhão de células infectadas, afirma Paulo Pizão. Os meios mais eficazes de detecção são o auto-exame das mamas, o exame clínico e a mamografia. O sintoma da doença já localmente detectável ao exame físico é o aparecimento do nódulo ou caroço, com ou sem irritação, e dor no local.
O oncologista revela que as pesquisas indicam o impacto significativo do auto-exame na detecção precoce do câncer de mama, registrando-se uma sobrevida em cinco anos de 75% entre as mulheres que o praticam contra 57% entre as não-praticantes. Esta vantagem na sobrevida persiste quando se ajusta por idade, método de detecção, histórico familiar e demora na aplicação do tratamento, diz o médico.
O professor da Unicamp recomenda o auto-exame das mamas uma vez por mês. A melhor época é uma semana após a menstruação. Para as mulheres que não menstruam mais, o auto-exame deve ser feito em um mesmo dia de cada mês a sua livre escolha. Ele observa que: as mamas nem sempre são rigorosamente iguais; o auto-exame não substitui o exame clínico de rotina, que deve ser anual para mulheres acima de 50 anos de idade; a presença de um nódulo mamário não é obrigatoriamente indicadora de tumor maligno; em 90% dos casos é a própria mulher quem descobre alterações nas mamas.
Mamografia O oncologista afirma que exame radiológico dos tecidos moles, mais conhecido como mamografia, é um dos mais importantes procedimentos para o rastreio do câncer ainda impalpável de mama, apesar de apresentar um índice de perda entre 10% a 15%. O acerto desse exame é menor ainda em mulheres jovens. Devido a pouca eficácia em mulheres com menos de 40 anos e mais de 70, a mamografia não deve ser usada em programas maciços de saúde pública e, sim, indicada no acompanhamento de mulheres de alto risco com suspeitas de doenças mamárias, argumenta Paulo Pizão. Já em mulheres de 50 a 70 anos, a mamografia, quando feita com periodicidade de um a três anos reduz significativamente a mortalidade.
Quanto ao exame clínico feito por um profissional de saúde treinado, o Instituto Nacional do Câncer recomenda que seja realizado a cada três anos pela mulheres com menos de 35 anos, a cada dois anos pelas mulheres entre 35 e 39 anos e anualmente pelas mulheres entre 40 e 49 anos. As mulheres na faixa etária entre 50 e 70 anos devem submeter-se ao exame anual ou semestral.
Uma vez detectado, outros testes serão feitos para saber se o câncer espalhou-se para outras partes do corpo, originando as metástases. Depois de determinar o estágio em que a doença se encontra, o médico pode planejar o tratamento junto com o paciente. Atualmente há quatro tipos de tratamento para o câncer de mama: cirurgia, radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia. Na maioria dos casos, a cirurgia é necessária para remover o câncer, seguida de tratamento com drogas para tentar matar qualquer célula cancerígena que possa ter sido deixada.
Novas drogas Grande parte das drogas que aumentam as chances de cura foi introduzida na prática clínica na década de 50. Nos anos 70 surgiram as antraciclinas (como a doxurrubicina) que se mantiveram como drogas-padrão no campo da quimioterapia durante 20 anos. Nos anos 90, sem novos desenvolvimentos ou resultados terapêuticos relevantes, os especialistas voltaram-se para as possibilidades de aplicação de medicamentos em altas concentrações.
As linhas de investigação e desenvolvimento farmacológico da Rhône-Poulenc Rorer, em conjunto com o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, voltaram-se para a pesquisa de uma substância extraída das espículas do eixo europeu árvore conhecida pelo nome científico de Taxus baccata dando origem ao docetaxel, a nova arma da medicina mundial contra o câncer.
Usado somente em clínicas e hospitais para tratamento quimioterápico de câncer de mama com metástases, o Taxotere (da família dos taxenos), é hoje o principal medicamento, segundo o oncologista Paulo Pizão, apresentando um novo patamar de respostas não atingido por nenhuma outra droga existente até agora no mercado.
Na opinião de Paulo Pizão, na decisão pela administração da quimioterapia, os oncologistas devem considerar os benefícios clínicos e os efeitos colaterais que possa provocar náuseas, vômitos, perda dos cabelos. Para os médicos, no entanto, o parâmetro mais nobre para decidir-se é a sobrevida que a quimioterapia pode proporcionar às pacientes.
* A jornalista Angela Raizer Barbosa foi a São Paulo a convite da Rhodia Farma





