Bom gosto não tem tamanho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de agosto de 2000
Rosângela Vale Texto e Produção 
A cena é clássica. Apaixonada pelo modelito da vitrine, a garota entra na loja e pede para provar. Não dispondo do tamanho solicitado, a vendedora traz um número três vezes menor e garante que serve porque a modelagem é grande. Um lapso momentâneo de bom senso faz com que a menina entre no provador e passe, pela milésima vez, pelo mesmo constrangimento. No triste momento em que todas as esperanças de exibir o novo look no final de semana já acabaram e a calça se encontra naquela difícil posição entalada entre os joelhos e os quadris a vendedora abre a porta para perguntar: e aí, ficou bom?
Todas as mulheres cujo manequim é maior que 44 certamente já passaram por situações deste tipo pelo menos uma vez na vida. O resultado também é unâmime. Fico triste e acabo comendo mais ainda, diz a arquiteta Renata Giandotti, 24 anos, que costuma andar pela Cidade em busca de roupas de seu tamanho. E na maioria das vezes quando resolve não se contentar com o que o mercado lhe oferece acaba voltando para casa de mãos abanando. A pior coisa é sonhar com uma blusa e nunca encontrar o modelo no seu tamanho, desabafa ela, que no verão não dispensa saias, vestidos e decotes. Não visto peças largas, estilo tia, explica.
A solução, quase sempre, é apelar para os serviços de uma costureira, mesmo que a vontade seja ter uma peça de grife. Quando quer um jeans legal, Renata tem que comprar modelos masculinos, sempre básicos demais para quem deseja algumas pitadas fashion. As marcas mais descoladas só produzem peças até o tamanho 44. Contenção de gastos ou preconceito? Para Arildo Stroiner, coordenador de atendimento da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), a razão é outra. É por falta de procura mesmo. O público que compra grife é mais transado, se cuida mais, diz.
Além de preconceituosa, a idéia de que uma mulher ignora os apelos da moda só porque está acima do peso é antimercadológica. Basta dar uma espiada nas estatísticas para constatar que o mercado simplesmente despreza uma fatia de consumidores que aumenta a cada ano. Apesar da supervalorização da magreza como padrão estético, a realidade é outra. Nos Estados Unidos, uma entre quatro mulheres é gorda. No Brasil, de 1980 para cá, o contingente de gordinhas cresceu 40% segundo dados da Organização Mundial da Saúde.
O segmento de lingerie vem demonstrando interesse em atender essa demanda: várias grifes estão lançando linhas especialmente desenvolvidas para o público em questão, sem deixar de lado a sensualidade, pois já se deram conta de que as mulheres maiores não querem peças ortopédicas, mas sim modelos normais, adaptados para seus tamanhos. O mesmo já não acontece com as confecções.O mercado não consegue separar obesidade de idade, comenta a estudante Bianca Pícoli Bilia, aluna do 4º ano de Estilismo em Moda da UEL, que escolheu o assunto para a sua tese de conclusão de curso e pretende trabalhar com o setor depois de formada.
Tenho idéia de montar uma grife de roupas tamanho maior para adolescentes, revela Bianca, observando que essa faixa etária é das mais prejudicadas. Só existem roupas de gordo, que parecem encapar a pessoa e não vesti-la. Na coleção que vai apresentar a título acadêmico no final do ano, Bianca quer fugir do que, convencionalmente, é considerada a melhor opção para as mais cheinhas. Nada de muito preto, nem de peças retas, sem respeito às formas. O objetivo é resgatar a sensualidade, proporcionando modernidade e funcionalidade às roupas.
A também estudante de moda Camila Ramandeli não só concorda com Bianca como já colocou em prática tais idéias na confecção da família, a Ramany. Trabalhando apenas com malhas (tipo liganete e suplex), a marca conta com fábrica e loja de varejo em Cambé, além de loja de atacado no Shopping Vest Sul, em Maringá. Cerca de 80% da produção é de tamanhos maiores, que vão até o GG, equivalente aos manequins 48-50.
Somos obrigados a fazer o P e o M para aproveitar o tecido, explica Camila, que abusou das peças junto ao corpo, dos decotes e das estampas na atual coleção primavera-verão, sempre preocupada em adaptar os modelos mais decotados para o uso do sutiã. Tudo para manter a sensualidade e, ao mesmo tempo, deixar a pessoa à vontade. Túnicas e modelos largos só complicam a vida delas, aumentam ainda mais o volume, ressalta. As provas das peças- piloto são feitas em modelos vivas, para garantir uma modelagem bem elaborada. Nosso público-alvo é o adolescente, mas acabamos vendendo também para jovens senhoras, diz o pai de Camila, Antônio Jair Ramandeli, que espera produzir cerca de 10 mil peças por mês nesta estação.
Outra marca que se preocupa em atender esse público carente de moda é a londrinense Sílvia Dore, que trabalha com numeração até 48, mas não para toda a coleção. Cerca de 40% dos modelos que produz ganham tamanhos maiores Tem coisa que realmente não fica bom, justifica. Vendendo para lojas de todo o Brasil, Sílvia vem notando que o segmento está crescendo. Os lojistas começaram a fazer mais pedidos de manequins grandes. Perceberam que as clientes compram praticamente todo o estoque quando encontram modelos maiores. É realmente um filão de mercado, observa.
Que o diga o empresário paulistano André Apasse, dono da grife que leva seu nome, uma das mais modernas do País a atender apenas clientes de peso, incluindo a apresentadora Sílvia Poppovic, que adotou a marca nesta nova fase de seu programa na Rede Bandeirantes. Produzindo lingerie, moda praia e as linhas festa, social e casual nos tamanhos 46 a 60, além de sapatos com fôrmas especiais, André explica que conseguir uma boa modelagem é a parte mais difícil do negócio. Exige um empenho muito grande do pessoal do desenvolvimento.
Mas o esforço vem valendo a pena. André já conta com quatro lojas em São Paulo e no próximo ano inicia as vendas no atacado. Já estamos aceitando cadastros de todo o País, tanto de quem tem a intenção de ter franquia da grife como de quem quer vender em lojas multimarcas, informa. O próximo passo é acrescentar a qualidade e o bom gosto da marca ao guarda-roupa dos homens. Daqui há dois anos, o empresário inicia a produção da linha masculina.


