Impossível esquecer as belas jogadas e os dribles fantásticos que a jogadora Marta, da Seleção Feminina de Futebol, fez no Pan do Rio de Janeiro, em julho deste ano, e na Copa do Mundo de Futebol Feminino, realizada na China em setembro. O Maracanã ficou cheio em plena quinta-feira à tarde para assistir à final do Pan e se render às meninas do futebol. O País quase parou para torcer pela equipe, que ficou com o segundo lugar no mundial.
Mais do que levantar o ânimo do esporte no País, Marta, Formiga, Cristiane e companhia também motivaram várias mulheres a se aventurar por um universo ainda bastante masculino: os campos de futebol. Mas em Londrina, várias meninas já trilhavam esse caminho antes de as estrelas femininas surgirem em rede nacional de televisão.
O ex-jogador e atual treinador de futebol Felipe Rodrigues Veloso, professor da Escola de Futebol São Caetano, garante que há cerca de três anos as meninas começaram a se interessar pelas aulas. ''Elas vêem os homens na televisão fazendo sucesso e isso chama a atenção delas. Muitas são trazidas pelos pais. A seleção feminina fez aumentar a procura, mas os ídolos das meninas ainda são os homens'', afirma.
''Me espelho no Ronaldinho. Gostaria de jogar como ele'', diz sem pensar Rebheka Nathalia Raupp, 12 anos, quatro deles dedicados ao futebol. A menina que é apontada pelo professor do São Caetano como uma das melhores da escola, mesmo entre os homens, diz que sempre preferiu a bola às bonecas. ''Meu pai conta que quando eu nem sabia andar direito, já me esforçava alcançar a bola de futebol'', conta.
E o interesse deu frutos. Rebheka é capaz de fazer centenas de embaixadinhas e dar olé em muitos meninos que também participam dos treinos e amistosos. ''Os meninos aceitam bem que a gente jogue com eles e é legal quando consigo driblar um deles'', afirma ela. ''Jogar com meninas não é bom porque a maioria não sabe jogar direito. Prefiro jogar com meninos. No começo eles não aceitaram muito bem a gente no time, mas agora é normal'', completa a colega de Rebheka, Letícia Esteves, 11 anos, que há quatro faz aula e também é apontada como um talento pelo professor. ''O Kaká e a Marta são meus ídolos. Quero chegar à seleção'', sonha.
Até nas escolas, onde outros esportes são oferecidos, o futebol disperta o interesse das meninas. ''Elas vêem no futebol um desafio, além do interesse criado pela mídia. Muitas das alunas têm um irmão que joga e começam a gostar apenas por brincadeira'', diz o professor do Colégio St. James', Cleber Roberto Probst.
''Comecei a jogar com meus primos e resolvi treinar para aprender mais. As pessoas acham que futebol é violento, coisa de homem, mas não é bem assim. Precisa ter coordenação e resistência e as meninas podem jogar de igual para igual'', diz a aluna da 8 série do colégio, Déborah Kobayashi, 14 anos, que reclama da recusa de alguns meninos em jogar com as garotas. ''As meninas geralmente são piores que a gente, mas dá para jogar normalmente com elas. O problema é quando tomamos um drible delas: é gozação na certa, de todo mundo'', explica o colega de treino, Leonardo Yuzo, 14 anos.
Para o ex-jogador e treinador Diego Souza, da Escola de Futebol do Flamengo, as mulheres têm as mesmas condições de jogar que os homens e possuem até uma certa vantagem em relação a eles. ''Elas são muito mais dedicadas, querem que a jogada saia perfeita. Já os meninos chegam achando que já sabem jogar e são relaxados. As mulheres também têm um jeito diferente de jogar, de tocar a bola. Elas observam mais a jogada antes de tomar uma atitude. Digo que os belos dribles da Marta não são característica só dela. É coisa de mulher, mesmo'', garante.
E se engana quem acha que a prática do esporte acaba com a feminilidade das garotas. ''Eu venho de brinco, pulseira, mas tenho que tirar para poder jogar. Também nos preocupamos em passar repelente para não ficar com as pernas marcadas. Já os hematomas não tem como evitar'', diz a estudante Nicole Lopes, 13 anos. ''Isso é um preconceito que muita gente tem. Quando digo que jogo futebol, as pessoas estranham, falam que é coisa de homem. Eu discordo. Meus amigos me chamam para jogar com eles todos os dias, eu adoro futebol e não sou masculina por causa disso'', completa a colega Aline Aguilera, 12 anos.

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