A dona de casa Zolaide Solange Rehder já não precisa mais ficar insistindo para as duas filhas não abusarem do refrigerante, agora restrito aos finais de semana. E quando essa regra é quebrada, lá vem repreensão. ''Pai, você não sabe que refrigerante dá celulite?'', reclama a pequena Isadora, de 6 anos. A também dona de casa Valquíria dos Santos deixou de gastar saliva mandando o filho Felipe, 11 anos, passar desodorante e sentar direito. Até mesmo na hora de se vestir o garoto tem dispensado a ajuda da mãe. ''Ele presta mais atenção na combinação de roupas'', observa ela. Para a professora Simone de Oliveira, a independência diante do guarda-roupa da filha Amanda, 8 anos, também foi pra lá de útil. ''Trabalho fora e não tenho tempo de ajudá-la a se arrumar'', justifica.
Todas essas mudanças no comportamento desses pimpolhos tem uma causa em comum: o curso de postura infantil, que vem sendo oferecido, gratuitamente, há quatro anos, nas lojas Pernambucanas, em Londrina. O resultado do trabalho não vem sendo notado apenas em casa. ''Diretores de escolas ligam e mandam cartas elogiando a iniciativa e pedindo vagas para novas turmas'', contam as professoras Andrea França e Kellen Lopes, responsáveis por esses pequenos ''milagres''. Com a experiência das aulas de modelo e manequim que ministram no Studio Desirée Soares, elas estruturaram o curso baseadas em ''questões do dia-a-dia que as crianças vão levar para o resto da vida''.
O projeto deu tão certo que Andrea e Kellen têm viajado para implementá-lo em outras cidades. Belo Horizonte, Governador Valadares, Maringá, Cornélio Procópio e São Paulo já seguiram o exemplo de Londrina. ''O objetivo da matriz é implantar o curso em todas as lojas Pernambucanas do Brasil'', informam, orgulhosas.
Aberto a meninas e meninos de 5 a 11 anos, o curso, com duração de um mês, aborda questões de higiene, etiqueta e vestuário, além de dicas de postura. ''Explicamos a diferença entre andar e desfilar, mas damos ênfase à postura e ao comportamento social'', esclarece Andrea. As aulas acontecem duas vezes por semana, durante uma hora e meia, com duas duas turmas de 20 alunos, uma de manhã e outra à tarde. Para a primeira turma do ano, com início esta semana, as vagas já foram preenchidas. E já há fila de espera para a próxima, que começa em abril.
Palavrinhas mágicas Para conhecer melhor as ''ferinhas'' que terão que enfrentar, Andrea e Kellen perguntam aos pais, na ficha de incrição, quais os costumes e manias indesejáveis dos filhos. Roer as unhas e falar alto lideram o ranking das reclamações. Mas nada que não seja resolvido durante as aulas. ''No final do curso, a diferença é visível'', garantem. Como suporte de ensino, as professoras contam com vídeos, recortes de revistas e coletâneas de boas maneiras infantis, além de montarem encenações para reforçar a utilização das ''palavrinhas mágicas'' desculpe, por favor e obrigado em diversas situações: em casa, no cinema, na escola.
Nas aulas de etiqueta, o objetivo é mostrar a disposição dos talheres na mesa e como manuseá-los, além de ensinar a mastigar devagar e a não falar com a boca cheia. Os pequenos aprendem ainda conceitos de nutrição, com dicas do que comprar da cantina, trocando, por exemplo, o refrigerante pelo suco e a fritura pelo assado.
No módulo sobre higiene, o banho ganha atenção extra: ''Ensinamos a limpar e enxugar direito as dobras do corpo, a dosar sabonete e xampu e a lavar a cabeça, pois geralmente eles só lavam os cabelos'', observa Andrea. No item vestuário, entram as diferenças entre roupa esporte e social, tipos de tecido e noções de como combinar as peças, usando a criatividade para montar novos looks, ''sem precisar ficar pedindo roupa nova para os pais a toda hora''. A idéia é fomentar a personalidade e o estilo próprio, evitando a proliferação de minis Sandys e outras cópias literais de artistas famosos. Os pais são os primeiros a bater palmas. ''É assim que se forma um adulto'', aprova a professora Simone de Oliveira. n

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