Mulheres que passaram por vários partos normais, sobretudo as que não tiveram acompanhamento médico adequado e sofreram traumatismos na estrutura pélvica, podem ter incontinência urinária. ‘‘Há ruptura do períneo, a bexiga desce e começa a perda de urina’’, explica o médico urologista Antônio Fernandes Neto. O problema pode ainda ser decorrente de lesões neurológicas e do envelhecimento, que acarreta perda de rugosidade da vagina.
Segundo o urologista, 40% a 60% das mulheres que têm queda de bexiga, apresentam também outros problemas, como prolapso uterino (saída do útero pela vagina) e enterocele (saída do reto pela vagina). O tratamento pode ser medicamentoso, cirúrgico ou, para os casos menos graves (quando não há prolapso), através de fisioterapia, cujos resultados, comprovados por pesquisa, são animadores.
Na tese de doutorado defendida este ano na faculdade de Medicina de Botucatu, a fisioterapeuta Eliane Moreira abordou dois tipos de tratamentos conservadores para a incontinência urinária: exercícios físicos e uso de cones vaginais. A pesquisa, feita no ambulatório de Fisioterapia do Hospital Universitário, acompanhou dois grupos de mulheres entre 48 e 50 anos. Um deles era submetido a exercícios de contração rápida e lenta da musculatura do períneo; o outro usava cone vaginal (espécie de absorvente com peso) e fazia exercícios que causavam aumento da pressão interabdominal, como agachamentos, caminhadas e aberturas de perna. Tudo para forçar o cone a sair e a musculatura a segurá-lo.
Ambos os grupos foram submetidos a 20 seções de 45 minutos uma vez por semana, durante cerca de seis meses. As mulheres foram avaliadas antes, durante, logo em seguida e após um ano depois do término do tratamento, quando, então, foram orientadas a fazer 50 contrações diárias em casa. ‘‘Houve de 60% a 80% de melhora ou cura nos dois grupos’’, contabiliza a fisioterapeuta, concluindo que os dois procedimentos são eficazes no tratamento da incontinência urinária. ‘‘As pacientes que usaram cone vaginal ganharam força mais rapidamente do que aquelas que só fizeram exercícios. Mas, depois de um ano, os dois grupos se igualaram na força muscular e o problema não voltou’’, diz.
Hábitos culturais Outra constatação feita ao longo da pesquisa foi a de que as mulheres não sabiam ter um canal vaginal. ‘‘Elas imaginavam que logo após a vulva já começava o útero. Também não sabiam que o períneo era um músculo. Pensavam que era apenas o nome da cirurgia’’, relata Eliane. Os exercícios estimulavam justamente essa musculatura do canal vaginal, com muitos movimentos pélvicos.
A fisioterapeuta informa que, em países onde os hábitos culturais proporcionam a movimentação da região pélvica, os índices de incontinência urinária são muito baixos. ‘‘As indianas fazem parto de cócoras; as muçulmanas se agacham várias vezes ao dia para realizar suas preces – além de movimentarem a região com a dança do ventre; e as japonesas se agacham para comer em função da altura das mesas. Esses movimentos contribuem para a irrigação do períneo e para a descompressão da pélvis, aumentando o fluxo sanguíneo na região’’, explica.
Eliane ressalta que, apesar dessas evidências e por desconhecimento da eficácia do tratamento fisioterápico, as brasileiras ainda preferem a cirurgia pois acreditam que só assim terão a cura. ‘‘Nos grupos que pesquisei havia mulheres que já tinham sido operadas sem bons resultados’’, observa. O serviço está disponível gratuitamente no ambulatório de fisioterapia ginecólogica do Hospital Universitário. Para se submeter ao tratamento, a paciente precisa de uma avaliação ginecológica prévia que constate não haver infecções vaginais ou urinárias, prolapso vaginal maior do que grau 2 e qualquer patologia que impeça a atividade física.

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