Benditos frutos
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quinta-feira, 05 de agosto de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
''É um menino!'' A frase, secretamente aguardada ou abertamente desejada pela maioria dos homens, nunca foi dita aos pais entrevistados nesta matéria. ''Benditos frutos'' da casa, eles foram vendo seu espaço masculino se reduzir à medida que a família aumentava: uma, duas, três, quatro mulheres. E nenhum companheiro para o futebol, a pescaria, os negócios... Triste sina? Eles garantem que não.
''A vida é mais cor-de-rosa em uma casa só de meninas'', diz o empresário Rangel Tarosso, 29 anos, pai de Isadora, 7 anos, Isabela, 5, e Isaura, com pouco mais de um mês. Segundo ele, como as garotas geralmente são mais apegadas ao pai, o homem acaba aprendendo a ser mais cuidadoso e carinhoso, até porque elas são bem exigentes e cobram atenção.
Rangel já assumiu integralmente o papel de ''paizão''. Recentemente, com a esposa de repouso por causa do parto, ele não se abalou: deu banho, fez comida, trocou roupa, levou no balé, participou de reunião da escola e contou histórias na hora de dormir. ''Nossa relação é incrível'', observa ele, mesmo já tendo que enfrentar a tradicional espera na hora de sair de casa. ''Elas querem estar sempre arrumadas, emperequitadas. E me perguntam se estão bonitas; precisam do meu aval para tudo''.
Apesar de nem sempre ter paciência com a vaidade delas Isabela queria fazer chapinha para a foto desta matéria Rangel encara com bom humor as exigências e caprichos femininos. E até mesmo a ''invasão'' de seu espaço: ''Elas fazem desenhos nos meus livros, espalham as bonecas pelo quarto, colocam a marca delas em tudo'', relata. Humor também é a fórmula que usa diante das brincadeiras dos amigos (pais de meninos), que o chamam de futuro sogro de seus filhos. ''Costumo dizer que minhas filhas terão um gosto melhor para maridos do que o meu para amigos'', diverte-se.
Laços familiares Uma das vantagens de ser pai de meninas, segundo Rangel, é a ligação que as mulheres costumam manter com a família, mesmo não morando mais na casa dos pais. ''Penso que, no futuro, elas vão estar sempre perto de mim'', acredita.
Os laços familiares mais fortes também são citados pelo médico reumatologista Rachid Tuma Netto, 64 anos, para justificar a sua satisfação em ser pai só de mulheres. ''Quando minha esposa ficou grávida pela primeira vez, eu desejava muito uma menina. Mulher é mais graciosa, mais afetiva. Meu professor de reumatologia só tinha filhas e eu achava interessante'', lembra. Vieram quatro: Talita, 29 anos, Paula, 27, Amanda, 26, e Bruna, 24.
''Gostaria de ter tido filhos dos dois sexos, mas não vejo nenhum problema em ter só meninas. A minha experiência foi excelente'', ressalta. Quando pensa na educação que deu a elas, questiona-se apenas se não teria sido superprotetor. Mas, no final das contas, percebe que conseguiu ser uma boa referência como pai. Duas delas escolheram a medicina como ofício.
A casa das sete mulheres Para o empresário Henrique Victorelli Neto, 37 anos, o sonho masculino de ter um varão explica-se pelo tradicional apelo à continuidade do nome. ''Mas, da forma que o mundo vem evoluindo, isso ficou no passado. Com as conquistas das mulheres nos últimos tempos, elas dão essa continuidade'', argumenta.
Cercado pela esposa e pelas quatro filhas Veridiana, 8 anos, Gabriela, 7, Manuela, 4, e Luísa, 2 ele se sente privilegiado. ''Sou muito paparicado e cuidado por elas. Para mim, é um grande prazer'', diz. Henrique se refere ao lar como ''a casa das sete mulheres'', colocando na conta as duas funcionárias. ''Aqui, até gato e cachorro são fêmeas'', brinca.
Como única referência masculina na família, ele atribui a si a responsabilidade por transmitir o melhor modelo possível. ''Quero que elas tenham valores familiares como eu tenho. Que estejam mais ligadas a aspectos de relacionamento humano do que a fatores profissionais. Isso é a base para construir pessoas mais seguras. As lideranças, hoje, são as que tiveram uma criação assim, e não só treinamento'', observa.
O empresário se diz tão satisfeito com a família que até gostaria de ter mais filhos, sem preferência por sexo, apesar de acreditar que com as mulheres seja mais fácil de se lidar. ''Comparando com amigos que têm só filhos homens, percebo que dois meninos dão mais trabalho que quatro meninas''.
A única questão que o aflige é a idéia de que terá quatro genros! ''Vou deixar para pensar nisso quando for a época, não vou esquentar a cabeça agora'', tranquiliza-se. Por enquanto, ele curte a companhia das filhas da melhor maneira possível. Já viajou sozinho com as garotas e até para o Pantanal levou uma delas. Vez ou outra, de madrugada, tem companhia garantida para um lanchinho rápido no Pátio São Miguel. ''Acho difícil imaginar companheirismo maior''.n


