Beldades protegidas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de junho de 2001
Rosângela Vale 
O espaço conquistado pela moda na mídia, a carreira meteórica de tops celebridades, o suposto glamour e a alta rentabilidade que envolvem a atividade fazem da carreira de modelo a grande aspiração da maioria das adolescentes brasileiras. Tornar-se uma top, atualmente, é mais ou menos como ser jogador de futebol em um time de primeira linha: nenhuma outra profissão oferece chances mais rápidas (ainda que para uma minoria) de ascensão social.
Alguns números dão uma idéia de como a questão é abrangente. Em uma pesquisa via Internet realizada ano passado pela revista Capricho, mais de 80% de 1.138 garotas responderam afirmativamente à pergunta Você tem vontade de ser modelo? e 40% disseram já terem feito algo para realizar esse sonho. Isso inclui, muitas vezes, cair no conto do vigário, ser ludibriada por pessoas de má-fé e gastar dinheiro (que muitas vezes a família nem tem) totalmente em vão.
Estupro Histórias desse tipo pipocam em todos os cantos do Brasil, principalmente em locais distantes de São Paulo, onde estão as maiores agências. Bruno Soares, da Next, lembra que até há pouco tempo costumava receber, toda semana, ônibus vindos do sul do País repletos de candidatas a modelo. Era uma espécie de excursão. Os organizadores prometiam às meninas, a maioria sem chance nenhuma, que iriam ser descobertas pelas grandes agências, contou ele.
Mas o que faz uma garota totalmente fora dos padrões de beleza exigidos para a profissão pelo menos para o trabalho de passarela, o mais almejado acreditar que pode tornar-se uma top? Com certeza, a mesma razão que levou várias garotas a embarcar na história do maníaco do parque. Apresentando-se como caça-talentos, ele estuprou e matou diversas vítimas. Sem falar nos cafetões que se aproveitam dessa ilusão adolescente para atrair garotas à prostituição.
Disque-denúncia Para evitar casos como esse e profissionalizar um mercado que apesar de ser um enorme exportador de modelos mundo afora ainda tem como característica a informalidade , as principais agências de modelos se uniram em torno de um só projeto: a criação de códigos para a regulamentação e a moralização da atividade. O objetivo é proteger a modelo, normalizar o mercado e acabar com a bandalheira, disse Eli Hadid, presidente da Mega e da Associação Brasileira das Agências de Manequins e Modelos (ABAMM), em encontro realizado semana passada, em São Paulo.
Na ocasião, foi lançado um disque-denúncia (11 223-0777) para investigações de agenciadores que trabalham ilegalmente, além de uma central de informações (11 3031-2388) para esclarecer dúvidas. Através desse número, por exemplo, é possível checar se uma pessoa é realmente um olheiro (ou scouter) de uma determinada agência. Uma regra que deve ser seguida à risca pelas meninas que são abordadas nas ruas, parques, escolas ou shopping centers. A ABAMM tem a listagem dos olheiros de todas as agências, informa Eli, que convida as empresas sérias a fazer parte da entidade. Segundo ele, os pedidos de filiação serão avaliados caso a caso. Não vamos julgar o tamanho da empresa, nem a eficiência, mas sim as qualidades morais e éticas, esclareceu.
Cadastro A partir de agora, ter um cadastro junto à ABAMM é uma questão obrigatória para quem quer ter espaço no mercado. É que os maiores eventos de moda do país o São Paulo Fashion Week e a Semana de Moda só aceitarão nos seus castings modelos cujas agências são filiadas à entidade. O calendário de moda brasileiro é o único no mundo a ser feito só com modelos do país. Os eventos vão crescer, outros surgirão. Essa relação com modelos vai ter que estar muito bem estruturada, observa Paulo Borges, diretor do São Paulo Fashion Week.
Outra questão abordada no encontro foram os cursos de modelos e manequins que não param de surgir em todos os lugares. Acho um absurdo pessoas que nunca tiveram experiência profissional darem cursos na área. Se a menina for para uma agência séria vai ter o curso gratuitamente, alertou Eli. Segundo ele, investir em books com fotógrafos fora do eixo das grandes agências também é perda de dinheiro.
De acordo com os representantes das agências filiadas à ABAMM, a função de uma agência de modelos, hoje, é justamente diminuir os custos das modelos iniciantes. Isso é feito através de parcerias com bons profissionais (fotógrafos, dermatologistas) e também restaurantes, possibitando, assim, que as garotas comecem a trabalhar sem acumular dívidas.


