Baixo astral perigoso
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quinta-feira, 09 de outubro de 1997
Francelino França 
ReproduçãoNas crianças, o pico de surgimento da depressão é por volta dos 10 anosDepressão é doença e não uma tristeza crônica, simplesmente, como muitos acreditam. Classificada como doença de base biológica pela Organização Mundial de Saúde, considera-se que 50% das pessoas atingidas por essa patologia estão na faixa etária entre 20 e 40 anos, fase altamente produtiva. Nas crianças, o pico de surgimento é por volta dos 10 anos. Estudiosos do assunto até colocam a depressão como problema de saúde pública.
Na criança, a depressão se apresenta de uma forma diferenciada. Enquanto no adulto ela se manifesta de uma maneira mais lenta, na fase infantil é mais agitada e ansiosa. É através da irritabilidade que os primeiros sinais podem se manifestar, seguida de perda de interesse e de prazer em todas as atividades. A criança desiste de brincar e não manifesta interesse em ir para a escola. Ela sente como se o corpo fosse um peso, a perda de energia é notória.
Esses sintomas foram enumerados pela psiquiatra londrinense Sandra Vargas Nunes, que atende várias crianças que apresentam esse problema. Tudo o que a criança faz é com muito esforço. Concentração e atenção ficam reduzidas e, inevitavelmente, há prejuízo escolar. A auto-estima também é afetada, observa a psiquiatra.
Segundo Sandra Vargas Nunes, os sinais são inúmeros e o diagnóstico nem sempre é fácil. Outros fatores podem sinalizar o estado depressivo na criança: idéias de culpa e de inutilidade eu faço tudo errado, e ainda visões pessimistas do futuro. Somando-se a esses fatores, muitas crianças apresentam idéias ou atos autolesivos. É a criança que se acidenta frequentemente por simples falta de prevenção,
afirma. Como se percebe, as causas são bastante amplas. É todo um conjunto de sinais com uma duração de pelo menos duas semanas. Além disso, o sono é alterado e o apetite sofre interferência para mais ou para menos. A criança não consegue manter o peso compatível com a idade, resume.
Arquivo FolhaA depressão é uma doença com duração e intensidade específicas e interfere no desenvolvimento escolar e social da criança, considera a psiquiatra Sandra Vargas Nunes
Casos na família Sandra alerta para um dado importante na depressão infantil. Quanto mais precoce é o surgimento da doença, maior a probabilidade de haver casos na família. Mas se o início do problema for tardio, são menores as chances de ter alguém na família depressivo. É a soma das influências genéticas e ambientais que propiciam o aparecimento da depressão. Os fatores genéticos são similares ao da transmissão de fatores como peso e altura. A pessoa pode ter a predisposição à depressão e se viver num ambiente harmonioso, a doença não vai surgir, avalia a especialista.
Existem diferenças entre a tristeza normal e a depressão patológica, pois esta é uma doença com duração e intensidade específicas e interfere no funcionamento escolar e social. A parte imunológica cai e pode contribuir para o aparecimento de infecções, afirma a médica. A depressão altera os neurotransmissores cerebrais (a química cerebral) e interfere no sono, apetite, concentração e imunidade.
De acordo com a especialista, o tratamento na criança tem duração menor, em comparação ao adulto, e baseia-se em antidepressivos e em psicoterapia. A administração da medicação é de acordo com o peso corporal. Há dois níveis de antidepressivos. Os chamados triciclos e os inibidores seletivos da captação de serotonina. Os primeiros apresentam muitos efeitos colaterais e precisam ser minuciosamente monitorizados pelo especialista (ver box).
Os medicamentos não causam dependência e demoram de três a seis semanas para fazer efeito, podendo o tratamento durar de seis meses a um ano, acrescenta. Deixar de tratar acaba ficando mais caro, devido às complicações médicas, às condutas autodestrutivas e perdas escolar e social enfrentadas pela criança. O fato de a criança ser introspectiva e calada não significa que ela tenha predisposição à depressão.
Geralmente, quem camufla uma personalidade depressiva é a criança rotulada de anancástica. Esse tipo de comportamento está presente nas crianças excessivamente cautelosas, preocupadas com detalhes, perfeccionistas e que agem com muita rigidez, querendo que todos façam tudo certo. Essas têm muito mais chances de se tornarem depressivas.
Como o diagnóstico da doença é difícil de ser feito, 50% das pessoas não são diagnosticadas como depressivas. Isso inclui adultos e crianças. As sequelas, muitas vezes, são a incapacidade e até o suicídio. Outro fator apontado por Sandra Vargas, que impede a cura da depressão, é que de cada 5 crianças tratadas, 4 estão em tratamentos alternativos, muitas vezes, ineficazes contra um mal tão poderoso.


