ReproduçãoNas crianças, o pico de surgimento da depressão é por volta dos 10 anosDepressão é doença e não uma tristeza crônica, simplesmente, como muitos acreditam. Classificada como doença de base biológica pela Organização Mundial de Saúde, considera-se que 50% das pessoas atingidas por essa patologia estão na faixa etária entre 20 e 40 anos, fase altamente produtiva. Nas crianças, o pico de surgimento é por volta dos 10 anos. Estudiosos do assunto até colocam a depressão como problema de saúde pública.
Na criança, a depressão se apresenta de uma forma diferenciada. Enquanto no adulto ela se manifesta de uma maneira mais lenta, na fase infantil é mais agitada e ansiosa. É através da irritabilidade que os primeiros sinais podem se manifestar, seguida de perda de interesse e de prazer em todas as atividades. A criança desiste de brincar e não manifesta interesse em ir para a escola. Ela sente como se o corpo fosse um peso, a perda de energia é notória.
Esses sintomas foram enumerados pela psiquiatra londrinense Sandra Vargas Nunes, que atende várias crianças que apresentam esse problema. ‘‘Tudo o que a criança faz é com muito esforço. Concentração e atenção ficam reduzidas e, inevitavelmente, há prejuízo escolar. A auto-estima também é afetada’’, observa a psiquiatra.
Segundo Sandra Vargas Nunes, os sinais são inúmeros e o diagnóstico nem sempre é fácil. Outros fatores podem sinalizar o estado depressivo na criança: idéias de culpa e de inutilidade ‘‘eu faço tudo errado’’, e ainda visões pessimistas do futuro. Somando-se a esses fatores, muitas crianças apresentam idéias ou atos autolesivos. ‘‘É a criança que se acidenta frequentemente por simples falta de prevenção’’,




afirma. Como se percebe, as causas são bastante amplas. ‘‘É todo um conjunto de sinais com uma duração de pelo menos duas semanas. Além disso, o sono é alterado e o apetite sofre interferência para mais ou para menos. A criança não consegue manter o peso compatível com a idade’’, resume.
Arquivo Folha‘‘A depressão é uma doença com duração e intensidade específicas e interfere no desenvolvimento escolar e social da criança’’, considera a psiquiatra Sandra Vargas Nunes
Casos na família Sandra alerta para um dado importante na depressão infantil. Quanto mais precoce é o surgimento da doença, maior a probabilidade de haver casos na família. Mas se o início do problema for tardio, são menores as chances de ter alguém na família depressivo. É a soma das influências genéticas e ambientais que propiciam o aparecimento da depressão. Os fatores genéticos são similares ao da transmissão de fatores como peso e altura. ‘‘A pessoa pode ter a predisposição à depressão e se viver num ambiente harmonioso, a doença não vai surgir’’, avalia a especialista.
Existem diferenças entre a tristeza normal e a depressão patológica, pois esta é uma doença com duração e intensidade específicas e interfere no funcionamento escolar e social. ‘‘A parte imunológica cai e pode contribuir para o aparecimento de infecções’’, afirma a médica. A depressão altera os neurotransmissores cerebrais (a química cerebral) e interfere no sono, apetite, concentração e imunidade.
De acordo com a especialista, o tratamento na criança tem duração menor, em comparação ao adulto, e baseia-se em antidepressivos e em psicoterapia. A administração da medicação é de acordo com o peso corporal. Há dois níveis de antidepressivos. Os chamados triciclos e os inibidores seletivos da captação de serotonina. Os primeiros apresentam muitos efeitos colaterais e precisam ser minuciosamente monitorizados pelo especialista (ver box).
‘‘Os medicamentos não causam dependência e demoram de três a seis semanas para fazer efeito, podendo o tratamento durar de seis meses a um ano’’, acrescenta. Deixar de tratar acaba ficando mais caro, devido às complicações médicas, às condutas autodestrutivas e perdas escolar e social enfrentadas pela criança. O fato de a criança ser introspectiva e calada não significa que ela tenha predisposição à depressão.
Geralmente, quem camufla uma personalidade depressiva é a criança rotulada de anancástica. Esse tipo de comportamento está presente nas crianças excessivamente cautelosas, preocupadas com detalhes, perfeccionistas e que agem com muita rigidez, querendo que todos façam tudo certo. Essas têm muito mais chances de se tornarem depressivas.
Como o diagnóstico da doença é difícil de ser feito, 50% das pessoas não são diagnosticadas como depressivas. Isso inclui adultos e crianças. As sequelas, muitas vezes, são a incapacidade e até o suicídio. Outro fator apontado por Sandra Vargas, que impede a cura da depressão, é que de cada 5 crianças tratadas, 4 estão em tratamentos alternativos, muitas vezes, ineficazes contra um mal tão poderoso.

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