Baixo-astral de fim de ano tem solução?
E, em vão lutando contra o metro adverso, só lhe saiu este pequeno verso: mudaria o Natal ou mudei eu?
(Soneto de Natal, Machado de Assis).
Muita gente no mundo, detesta as comemorações de fim de ano, especialmente o Natal. Esse estado dalma não é considerado doença pela psicologia. Inclusive, há pouca literatura sobre o assunto. Mas os americanos classificaram-na de holiday blues, algo como melancolia de feriado.
O psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, coordenador do núcleo de doenças afetivas do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), explica que esse sentimento geralmente acomete as pessoas no fim do ano, pois este é um período de confraternização familiar, em que os conflitos do ano vêm à tona, a saudade das pessoas que já se foram fica mais forte. E como o Natal é reunir a família, quem não tem fica mais melancólico.
A coordenadora de cursos Sandra Matias, de 49 anos, tomaria um sonífero no dia 14 dezembro, se pudesse, para só acordar em 2 de janeiro. Para ela, a data é como se fosse um período de balanço de tudo de ruim que se passou, mas não só isso. Além da saudade dos amigos que partiram, ela sempre pensa que, enquanto uns estão felizes outros não estão.
Essa sensação pode ser explicada pelo marketing feito em cima do Natal. Família feliz, gente feliz, todo mundo sorrindo. E a vida não é assim. A festa é vendida de tal forma que somos obrigados a ser felizes. Essa obrigatoriedade pode ser a chave da melancolia de alguns. Os Natais que a mídia retrata são perfeitos e nem todos os Natais são assim, explica a psicóloga clínica Cristina Magnaghi.
Em outras palavras, algumas pessoas, segundo a psicóloga, querem ter o direito de não curtir a festa, não participar da confraternização em família, mas são cobradas a fazê-lo.
Para ilustrar esse sentimento, a psicóloga cita o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), que, em um de seus escritos, diz que toda celebração remete a uma reflexão e, quando celebram o Natal, as pessoas refletem sobre o que estão comemorando e muitas vezes não encontram sentido nisso.
Qual é o caminho, então? Mude a rotina, quebre os protocolos, afinal, protocolo não é afeto. As pessoas devem buscar aquilo que faz sentido para elas e não para os outros. Se está acostumado a passar o Natal em casa, experimente passar na casa de outra pessoa ou num lugar diferente, diz Cristina Magnaghi.
O mais importante das confraternizações, segundo a psicóloga, não é a comida farta ou os presentes, mas, sim, a qualidade do encontro.
Como escreveu Heidegger, todo estado dalma é uma paisagem. Se eu disser há sol nos meus pensamentos, ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes. (Adriana Cardoso/AE)#





