Ausência do pai
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quinta-feira, 11 de maio de 2006
Por Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Sete anos após o escândalo de O Último Tango em Paris (1972), o cineasta italiano Bernardo Bertolucci resolveu chocar mais uma vez o público. Convocou então uma atriz americana de prestígio, Jill Clayburgh, para interpretar uma cantora de ópera e mãe amorosa até demais em La Luna (1979). O filme volta agora em DVD numa cópia irretocável e com muitos extras da Versátil Home Vídeo. Visto com quase 30 anos de distância, La Luna parece menos escandaloso do que talvez pretendesse Bertolucci. Em compensação, revela muito sobre o processo de desagregação da família.
Mas continua ousado ao levar ao paroxismo a questão da ausência do pai e o que isso significa em termos do estabelecimento de leis e mandamentos. Num universo em que existem apenas mãe e filho, a ausência da figura paterna deixa o terreno aberto para um trauma edipiano. É justamente esse o drama do garoto Joe (Matthew Barry), filho da cantora lírica Caterina (Jill Clayburgh), que parte de Nova York para uma temporada italiana quando morre seu marido Douglas (Fred Gwynne). À deriva em Roma, Joe envolve-se com a turma errada. Torna-se viciado em heroína.
O filme começa em flash-back, uma cena noturna em que Caterina passeia de bicicleta com o filho bebê numa estrada rural da Itália. Anos mais tarde, veremos os dois percorrendo o mesmo caminho de carro, sintomaticamente numa viagem em busca do pai verdadeiro, após um incestuoso beijo com a mãe. A repetição é intencional. Todo o filme se estrutura em torno da teoria freudiana da cena primitiva, desde seu prólogo.
No prelúdio de La Luna, o pezinho de Joe bebê enrosca-se numa linha, simulando o jogo descrito por Freud em Além do Princípio do Prazer (nele, o pai da psicanálise fala de uma criança que brinca com um objeto preso a uma linha). Nesse jogo, esconde-se o objeto para que seja resgatado, estimulando sua perda e puxando-se o cordão para fazê-lo reaparecer. É justamente o que vai definir a relação mãe e filho no filme de Bertolucci. O menino perde-se atrás das drogas e a mãe tenta recuperá-lo, alimentando sua compulsão para repetir o gesto. A repetição de um padrão aproxima e distancia os dois.
Joe tem um interesse genuíno pelo canto lírico da mãe, ainda que não compartilhe de seu entusiasmo por Verdi. Repudia, enfim, seu mundo burguês. Caterina sente-se atraída pelo filho, mas deplora seu vício e seus amigos marginais, entre eles o marroquino que lhe fornece drogas. O filho dá corda. Deixa-se seduzir por um homossexual (Franco Citti) num bar, dança para ele ao som dos Bee Gees e, entre outras transgressões, injeta heroína no banheiro de um cinema que exibe Torrente de Paixões, o sugestivo filme de Marilyn Monroe.
Bertolucci exagera no jogo formal. Abusa, por exemplo, das associações visuais o teto do cinema se abre no verão para revelar a lua e Joe lembra-se da estréia romana de sua mãe cantando a ária de Leonora (Tacea la Notte Placida) em Il Trovatore. Já no epílogo, o mesmo Verdi do Ballo in Maschera será usado para desmascarar pai e mãe uma analogia um tanto óbvia, embora funcional. Momento mais feliz nesse jogo sonoro de aproximações é o uso do trio mozartiano Soave Sia il Vento, da ópera Così fan Tutte, cantada pelo velho professor cego e paralítico de Caterina, que ela visita quando parte para Parma (cidade onde nasceu Bertolucci) numa viagem nostálgica em busca de sua juventude.
Antes de tudo, Bertolucci é um poeta. Ou seja, alguém capaz de tratar de assuntos polêmicos como incesto sem esbarrar na vulgaridade. Auxiliado pelo fotógrafo Vittorio Storaro, ele realizou com La Luna um de seus mais belos filmes, deliberadamente transformado num melodrama verdiano e premonitório. Ao associar a alienação dos jovens da época à superproteção de pais cheios de culpa, Bertolucci, de algum modo, prenunciou o que viria a seguir, um jogo em que a falta de cultura é suprida pelo excesso de droga. E já sugeria um antídodo: o tapa que o verdadeiro pai dá no rosto do garoto mimado e mentiroso, trazendo-o para o mundo real.


