Atraso na linguagem oral
Uma das causas do problema está relacionada à falta de atenção e estímulo
por parte dos pais


Jossânia Navolar

A criança aprende por imitação. É reproduzindo o som emitido pelo adulto
que o bebê começa a falar com ele. O padrão de desenvolvimento da fala,
estabelecido pelo educador Jean Piaget, é dividido em seis etapas. A primeira
vai dos 30 aos 60 dias de vida - é quando a criança reage ao som recebido,
mudando a atitude em função disso. A segunda etapa, que vai do segundo ao
sexto mês, é a da imitação esporádica do som. Já do 6º ao 9º mês, a imitação
do som é sistemática, embora ainda não tenha um significado. É apenas uma
repetição audiomotora. A quarta etapa, entre o 8º e o 12º mês de vida, é a
fase da compreensão. Dos 12 até os 24 meses é a etapa em que a criança fala
com significado, executando ordens, dando sentido às frases propriamente
ditas. A última etapa, a partir dos 24 meses, é quando a linguagem da criança
passa a ter abstração e ela cria frases sem imitação.
A fonoaudióloga Sofia Dias Xavier lembra que o desenvolvimento da
linguagem oral inicia-se logo ao nascer. ‘‘O primeiro choro é
também o passo inicial para a comunicação. Em seguida, o bebê passa pela
fase do balbucio, que é apenas um reflexo. Aqui ainda não há intenção
comunicativa. E a mãe interpreta intuitivamente o que seu filho está sentindo.
Depois dessa fase, vem a época da lalação, que poderíamos chamar de
pseudodiálogo, porque a criança já faz uma comunicação linguística, mas
ainda não de maneira intencional’’, explica.
Estímulo Segundo Sofia, nessa etapa, mais ou menos entre os quatro e cinco
meses, é fundamental a atenção dos pais para a deficiência auditiva, porque é
justamente nessa fase que o deficiente auditivo começa a regressão no
desenvolvimento de sua linguagem oral.
Caso não haja problemas auditivos, o processo de desenvolvimento da
linguagem prossegue, porém o estímulo dos pais é muito importante para sua
continuidade. ‘‘A criança gosta do som que produz e do
feedback dos pais. É o reforço dos adultos que vai estimulá-la a querer se
comunicar’’, explica a fonoaudióloga.
Sofia lembra que em todas as fases, o contato adulto-criança é muito
importante. ‘‘No desenvolvimento da fala, a vivência também é
fundamental - vivenciar é conhecer de fato. A criança precisa explorar o
mundo para desenvolver satisfatoriamente a linguagem. Por isso, ela deve
rolar, rastejar, engatinhar, explorar os cinco sentidos, andar, dar cambalhotas,
correr, enfim, brincar sozinha, com outras pessoas e com
objetos’’, diz.
A mãe deve sempre estar interagindo entre o bebê e o meio-ambiente. Falar
com a criança e cantar para ela fazem parte do processo. Brincadeiras como
estalar a língua (cavalinho), vibrar os lábios (caminhão) e dar beijinhos com
os lábios em bico ajudarão no fortalecimento dos órgãos da fala. A
fonoaudióloga desaconselha o excesso de infantilização ao falar com a
criança, e o que é pior, falar dando um modelo incorreto, tipo
‘‘águinha’’ ou
‘‘baliguinha’’. Esse tipo de coisa poderá ser
imitado, complicando mais tarde a aprendizagem correta das palavras.
Atenta ao desenvolvimento da criança, a mãe que percebe algum distúrbio na
aquisição da linguagem deve procurar ajuda. Algumas vezes, o problema não
é grave, mas pode ser reforçado se não for tratado de maneira adequada. O
médico neurologista Efigênio Castro Junior explica que essa aquisição tanto
pode ser retardada por fatores físicos como psíquicos. ‘‘Por
isso, o estudo da linguagem na criança tem que ser multidisciplinar. A função
do médico é identificar alteraçäes orgânicas que possam ter desencadeado o
problema. Descartando essas causas é preciso uma investigação cuidadosa de
outras questäes, sejam emocionais, psicológicas ou fonoaudiológicas. Aqui
entra o trabalho conjunto com outros profissionais: pedagogos, psicólogos e
fonoaudiólogos’’, relata.
Ciúmes Segundo a pedagoga Simone Cruz, as causas psicológicas são
desencadeadas por fatores como inibição ou timidez, medo, vergonha,
traumas e sustos e até por infantilidade e imaturidade da própria criança. As
emocionais são comuns quando a criança têm pais muito críticos, que exigem
demais, brigam muito, enfim são muito autoritários. ‘‘Os pais
que não ouvem os filhos e que não se interessam pelas ‘coisas’
das crianças também colaboram para o atraso de sua linguagem. Por isso, é
necessário ficar atento a esses detalhes’’, alerta Simone.
A preguiça e o comodismo da própria criança em falar, também são causas
comuns. Muitas vezes, essas questäes estão interligadas à falta de estímulos
afetivos e de satisfação. A pedagoga lembra que a televisão em excesso desde
cedo acaba reforçando essa preguiça e comodismo. Assim, é necessário que
os pais questionem sempre sobre as necessidades do filho. A criança fala para
quem, para quê, e porque? O que ela procura e ganha? Há algum déficit nessa
comunicação que ela está buscando com os pais? Aqui é bom lembrar que há
casos de crianças que atrasam a linguagem oral, ou mesmo sofrem regressão
em seu desenvolvimento, em função dos ciúmes pelo nascimento de um outro
irmão. O que é mais um motivo para atenção e cuidados.
E os pais muito ansiosos devem entender que, do mesmo jeito que a falta de
estimulação atrapalha, a atenção e proteção demasiada também não ajudam.
‘‘Pais que fazem tudo pela criança, resolvem tudo pela criança
(seus problemas de relacionamento com outros amigos, suas necessidades
não expressadas) colaboram para o atraso na linguagem. Geralmente, são pais
que falam pelo filho. Eles contam o que ele fez, o que sentiu, os motivos que
ocasionam determinada situação e como resolvê-la, sem deixar espaço para
que a criança possa se manifestar’’, alerta.
Ser único A fonoaudióloga Sofia Xavier concorda. ‘‘A criança
tem que ser levada a desenvolver a capacidade de elaborar um pensamento e
trocar uma informação com o adulto, dominando assim a arte da
comunicação. É importante a mãe lembrar que o seu bebê é um ser único,
individual e completo. É preciso respeitá-lo e saber entender suas
manifestaçäes: carinho, contato visual, sorriso, aconchego e voz - a voz da
mamãe, com muita vibração de amor. Isso não significa excesso de mimos,
de limites, de cuidados, de zelo, excesso de ordens, excesso de controle e
supercomportamento’’, revela.
Segundo o médico neurologista Efigênio Castro, a disfasia do
desenvolvimento, atraso específico de linguagem, quando não há lesäes
neurológicas, muitas vezes ocorre pela própria fisiologia da criança.
‘‘O problema é quando os pais acabam fixando essa fase, por
algum motivo’’, diz.
Para o médico, tirando o stress dos pais, não são necessárias grandes
preocupaçäes. É a própria estrutura da criança que, algumas vezes, demanda
um tempo maior. Dessa forma, é importante descartar as causas orgânicas e
depois desenvolver um trabalho conjunto com outros profissionais, até para
tirar um pouco a própria ansiedade dos pais.

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