Herika Fondazzi
Reportagem Local
Manter o corpo em forma é uma preocupação para a maioria das pessoas. Com o aumento do consumo de alimentos altamente calóricos e pouca atividade física, a obesidade já é um problema de saúde para milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, estima-se que 30% da população esteja acima do peso e 10% sejam obesos mórbidos. Parte dessas pessoas são crianças e jovens, que sofrem com o preconceito e com os riscos que a gordura em excesso oferece, como doenças cardíacas, pressão alta e diabetes.
  Como resultado dessa situação, adolescentes vêem na cirurgia de redução de estômago, ou cirurgia bariátrica, a solução definitiva para uma vida geralmente cheia de dietas mal-sucedidas e frustrações. Mas, segundo o gastroenterologista Ricardo Nakamura, em pacientes com menos de 18 anos a técnica é ainda uma opção controversa. ‘‘Em adolescentes, a cirurgia bariátrica só é usada em último caso. Motivos psicológicos, físicos e riscos normais de uma operação desse porte contra-indicam o procedimento’’, afirma.
  A cirurgia é indicada para casos de pessoas com índice de massa corpórea (IMC) acima de 40. ‘‘Em casos de pacientes com IMC acima de 35 associado a problemas como pressão alta e apnéia do sono, a cirurgia também pode ser indicada’’, comenta o médico.
Perigo Devido a exigência de um peso bastante elevado para a realização da cirurgia, alguns adolescentes chegam a engordar para tentar alcançar o índice necessário para se submeter à cirurgia. ‘‘Isso é um erro porque quanto mais a pessoa engorda, mais complicações ela terá e pior ficará a sua saúde’’, alerta.
  Essa atitude arriscada tem se tornado comum e preocupado alguns médicos. ‘‘Quem procura um especialista em cirurgia bariátrica meramente com fins estéticos e não está dentro do IMC indicado deve ser alertado sobre os riscos que certamente desconhece e bem orientado a fazer dieta e exercícios físicos’’, diz o médico Thomas Szego, cirurgião gastroenterologista do Hospital Santa Paula de São Paulo.
  Por ser uma cirurgia grande porte, a redução do estômago oferece riscos que precisam ser levados em conta, principalmente quando se fala da vida de um jovem. O especialista garante que 0,5% a 1% dos casos apresentam complicações que levam à morte. ‘‘Parece pouco, mas de cada 100 pessoas uma poderá vir a óbito pela cirurgia. Se essa pessoa for um jovem, a perda é muito significativa’’, explica Ricardo. Apenas quando os riscos da operação são menores que os riscos de permanecer gordo a técnica é indicada, independentemente da idade do paciente.
RecaídaUm dos riscos de se realizar a cirurgia em adolescentes é a dificuldade de mudar os hábitos alimentares. ‘‘Geralmente, os jovens não gostam de saladas ou frutas e se alimentam de comidas gordurosas como fast food. Se depois da cirurgia esse hábito persistir, o jovem pode sofrer de deficiência de nutrientes, uma vez que a quantia de alimento ingerida é bem menor. Isso pode levar a anemias profundas, osteopenia e osteoporose precoces’’, diz a nutricionista Daniela Maculan Accorsi.
  Daniela lembra também que os jovens geralmente não fazem o acompanhamento com nutricionistas após a cirurgia e correm o risco de recuperar o peso. ‘‘Por ter muito tempo de vida ainda, a pessoa continua comendo errado e volta a engordar’’, afirma. ‘‘O jovem é muito inconseqüente e acaba se deslumbrando com a cirurgia e acreditando que pode voltar a comer depois que perder peso’’, acrescenta a psicóloga Juliana Bisatto Cardoso.
  Outro problema que pode surgir em decorrência da cirurgia em adolescentes é a transferência do vício de comer para o de beber ou se drogar. ‘‘Muitos comem de forma compulsiva e depois da cirurgia, como não conseguem mais comer, passam para o álcool ou as drogas. A adolescência já é uma fase de muitas mudanças e a cirurgia será outra bastante significativa. O jovem deve ter a consciência de que não vai mais comer como antes e que terá que mudar hábitos e atitudes para manter o peso’’, explica Juliana.
  Mas ela também lembra das vantagens que a perda de peso traz para qualquer pessoa. ‘‘A auto-estima melhora muito e isso é importante para um adolescente’’, comenta. Os ganhos para a saúde também são muitos. Se o paciente fizer o acompanhamento com um grupo de médicos de forma correta, consultando o nutricionista e um psicólogo, a cirurgia provavelmente será um sucesso. ‘‘Os riscos de se permanecer obeso geralmente são maiores do que os riscos da cirurgia’’, garante o gastroenterologista.

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