Entre os questionamentos feitos normalmente pelos pais antes de fazer a matrícula dos filhos em uma instituição de ensino, existe uma dúvida que muitas vezes passa despercebida pelas famílias: a proposta pedagógica, conhecida também como Projeto Político Pedagógico (PPP). O documento, que traduz a ''identidade'' da escola, nem sempre é solicitado pelos pais.
A pedagoga e psicopedagoga Lucia Helena Funes Feitosa da Silva, especialista em Gestão Escolar e Didática - que há sete anos atua na Secretaria de Educação com a elaboração de propostas pedagógicas - alerta, no entanto, que é de suma importância ter acesso ao documento.
''Trata-se, acima de tudo, de uma carta de compromisso. O grupo que elaborou a proposta deve se comprometer com as questões ali registradas e periodicamente avaliar todo o trabalho'', pontua.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) determina que todos os estabelecimentos de ensino devem elaborar as suas propostas pedagógicas. ''No documento deve ser exposto o contexto da instituição, sua história, sonhos, expectativas, crenças, valores. Também apresentar as formas de organização dos tempos e espaços, o recurso físico, equipamentos e materiais disponíveis, qualificação dos profissionais, definição de funções, entre outros tópicos'', eslarece Lucia Helena.
Segundo ela, o documento deve mostrar ainda como as crianças da instituição estão organizadas e como será desenvolvido o trabalho pedagógico com elas. ''É necessário apresentar os eixos, metodologias e concepções aplicadas nos diferentes níveis, etapas e modalidades, para que o ensino seja coeso e de qualidade'', destaca.
A pedagoga, que atua há 27 anos na área da educação, afirma que existem algumas diferenças entre as propostas da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. ''Cada etapa da educação tem suas finalidades e legislações específicas. No Ensino Fundamental I, do primeiro ao quinto ano, por exemplo, não é preciso ofertar língua estrangeira, já do sexto ao nono ano, sim. No Ensino Médio é obrigatório haver aulas de filosofia e sociologia e nas séries anteriores, não. É obrigatório um mínimo de carga horária a partir do primeiro ano do Ensino Fundamental, e na Educação Infantil, não'', explica.
Mas, independentemente da etapa, é necessário que a instituição implante ações para que a proposta pedagógica seja de fato cumprida, articulando coerência entre o discurso e a prática. ''É possível que o local tenha um documento escrito e que o trabalho pedagógico desenvolvido seja outro'', alerta.
Lucia Helena lamenta ainda que a maioria das instituições escolares e dos profissionais não têm clareza ao diferenciar as propostas, que têm influências de vários campos, como filosofia, sociologia, antropologia, psicologia e algumas da teologia. ''Duas linhas de pensamento - as tendências liberais e progressistas - norteiam as propostas, que se desmembram em alguns modelos'', diz. (veja quadro)
As mais comuns
Entre as propostas mais comuns aplicadas atualmente, a pedagoga considera que a ideia de ''aprender a aprender através do construtivismo clássico de Piaget'' está em alta. Além do ''aprender a aprender através do construtivismo eclético que tenta juntar outros teóricos com recheios de ideias de vários autores modernos mediante a pedagogia de projetos, competências e habilidades, pedagogia do professor reflexivo, socioconstrutivismo, sociointeracionismo e construtivismo pós-piagetiano''.
Hoje existe também uma educação que considera a importância da escola trabalhar os conteúdos historicamente acumulados, articulados com as vivências dos alunos, objetivando o desenvolvimento do senso crítico por meio de uma pedagogia histórico-crítica ou histórico-cultural.
Para Lucia Helena, o sucesso da proposta depende da formação continuada dos professores e da participação constante dos pais, fiscalizando, colaborando e confiando na escola. ''A família deve confiar que a escola vai fazer o melhor'', orienta.
De acordo com ela, os pais de modo geral não se atentam à proposta pedagógica. ''Estão mais voltados a outras questões, como se o espaço é bonito e seguro, o valor da mensalidade, a proximidade do local onde moram, entre outros fatores. Conhecer a proposta da instituição, no entanto, pode evitar atritos desnecessários entre pais e gestores futuramente'', alerta.


Imagem ilustrativa da imagem Atenção às propostas pedagógicas
| Foto: César Augusto
A psicopedagoga Lucia Helena Silva: ''Cada etapa da educação tem suas finalidades e legislações específicas''
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