Até que a morte nos separe
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de junho de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Se há um setor que raramente tem do reclamar nestes tempos bicudos da economia é o casamenteiro. Alta do dólar, aumento da taxa de juros, inflação... Não há o que faça um casal apaixonado e convencido da importância da benção do matrimônio desistir do altar, nem que para isso seja preciso parcelar a conta a perder de vista. Tradição? Conveniência familiar? Pressão social? Numa época em que mais vale a intenção de ficar junto do que a institucionalização do relacionamento, nada disso explica o brilho nos olhos de quem exibe uma aliança na mão direita.
''Sempre perguntei à minha mãe: como vou saber quem é a pessoa certa? Mas isso não se explica. Eu já sabia, desde o começo, que era ''ele'', garante a produtora da rádio Paiquerê, Adriana de Souza Faria, 28 anos, noiva do ortodontista Renan Moura de Oliveira, 30. O casamento, que acontece dia 29 de outubro, foi marcado com pouco mais de um ano de namoro, mas o casal já se conhecia há 10 anos. Como ele era amigo dos irmãos dela, os dois se encontravam vez ou outra, mas nunca rolou nada. Até que, num fim de festa, os olhares se cruzaram.
A transição do namoro para o noivado foi uma decisão conjunta. ''Durante o pouco tempo que a gente está junto, já pude perceber todas as qualidades dela'', elogia Renan. Para Adriana, o casamento dos pais, que dura 35 anos, é a sua maior inspiração. ''Tenho uma escola muito boa em casa''. Tanto que a palavra ''separação'' não existe no dicionário do casal. ''Sempre pensei: quando decidir que é a pessoa certa, não vai ter duas vezes'', sentencia ele. ''Nos consideramos bem tradicionais nesse sentido'', reforça ela.
Tal posição não é baseada em nenhuma expectativa fantasiosa. ''Sou super realista, sei que não vai ser um mar de rosas e que vamos enfrentar muitas dificuldades'', prevê Renan. ''Vamos resolver os problemas juntos. A partir do casamento, não vai ter mais 'eu', mas 'nós''', argumenta Adriana. Com essa filosofia, eles terão que encarar o primeiro impasse da vida conjugal: ''Quero ter cinco filhos, ele, só dois''.
Confidentes A história da bancária Renata Isgarioni, 24 anos, e do empresário Leandro Bernardi de Almeida, 28, que se casam dia 2 de outubro, é um exemplo típico da máxima popular de que a pessoa certa pode estar mais perto do que se imagina. Precisamente, no caso deles, sentada na carteira ao lado, em plena sala de aula. O detalhe é que só descobriram isso quando terminaram a faculdade, após chorarem, repetidas vezes ao longo de quatro anos, um no ombro do outro, por causa de desilusões com terceiros. ''Éramos confidentes'', lembram.
Seis meses depois da formatura, Leandro resolveu ligar para Renata. ''Tenho uma novidade para te contar. Terminei o namoro'', disse ele. ''Por quanto tempo?'', respondeu ela, já acostumada ao ''termina-e-volta'' do relacionamento de oito anos do amigo. Por isso, não se convenceu quando ele jurou que era para valer, horas mais tarde, durante uma rodada de chope. Mas a semente estava lançada. Bastaram mais algumas saídas, a torcida dos amigos e uma semana de conversa telefônica, madrugada adentro, para que se convencessem do óbvio: foram feitos um para o outro.
''Do ponto de vista prático, comecei a namorar uma pessoa que eu conhecia quase por inteiro'', avalia Leandro. ''No começo, foi constrangedor beijar meu melhor amigo; a gente caía na risada'', lembra Renata. Meses depois, já estavam marcando o casamento. ''A maturidade do Leandro fez dele o homem dos meus sonhos'', declara-se. ''Ela tem a sensibilidade de escutar os meus problemas de trabalho, mesmo sem entender tecnicamente do assunto'', elogia ele.
E o que esperar da vida a dois? ''Que a gente continue assim, sempre com uma conversa aberta'', revela Renata. ''Não decidimos nada sem ouvir o outro'', completa Leandro. Para dar conta do desafio, eles adotaram, como tripé da relação, um preceito católico: oração, diálogo e perdão. ''Nunca nos despedimos brigados. Resolvemos tudo antes'', ensinam. n


