Até onde proteger os filhos
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003
Lilian Primi<br> Agência Estado 
A busca por proteção tem levado muitos pais, especialmente de classes de maior poder aquisitivo, a isolarem seus filhos numa tentativa de poupá-los das agressões diárias típicas dos grandes centros. Para esses pais, crescendo em condomínios fechados ou no interior de mansões, muitas delas reproduzindo o mundo encantado das fábulas, seus filhos estarão também protegidos do estilhaçamento de valores que ocorre na sociedade moderna. Poderão encontrar a felicidade e o sucesso.
O exemplo mais recente é o da filha da dançarina Carla Perez (ex-É o Tcham!) e do pagodeiro Xanddy (vocalista do Harmonia do Samba). A julgar pelo que aparece na mídia, a vida que se desenha para Camilly Victória é toda cor-de-rosa e mágica. E o mais bizarro caso é o de Michael Jackson, o maior e mais esquisito pop star do império, que preferiu materializar a Terra do Nunca, mundo imaginário de Peter Pan, em sua mansão e mora lá.
Para os especialistas, essa tentativa de cuidar dos filhos pode ser ainda mais perigosa. ''A bizarrice de Michael Jackson, a paparicação ilusionista de Carla Perez e o isolamento na gaiola dourada dos condomínios vão criar muito sofrimento para essas crianças na hora em que chegarem à adolescência. Elas vão pôr a cara no mundo totalmente desamparadas, sem a menor idéia de como contracenar com ele'', explica a psicóloga Henriette Tognetti Penha Morato, que coordena o Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia Fenomenológica e Existencial (LEFE), do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).
Desamparo Henriette desenvolve sua pesquisa na área de psicologia clínica social em instituições como a Febem, batalhões da Polícia Militar e delegacias da Polícia Civil, além de dar plantão no Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP. ''Quando um cliente chega para pedir socorro neste serviço é porque a situação ultrapassou todos os limites suportáveis. Atendemos muitos universitários, que vieram de lares superprotetores e sofrem desesperadamente de tanto desamparo'', conta. ''Estamos falando de sujeito, não de robô. As pessoas reagem de forma única a experiências comuns'', diz. Segundo a psicóloga, o futuro dependerá, como para todas as outras crianças, de como ela irá lidar com esse sofrimento. ''Ninguém escolhe os pais que tem. Somos obrigados a aceitar as circunstâncias que se apresentam'', afirma.
O desenrolar da história ilusória de Camilly e dos filhos de Michael Jackson, da Xuxa ou do milionário que cresceu superprotegido no condomínio, pode surpreender para o bem e para o mal. ''Experiências da vida não podem ser vistas como uma garantia de que essas crianças irão se tornar adultos incompetentes'', acrescenta Odila Weigand, psicopedagoga e diretora do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo. Segundo a psicóloga, poupar a criança de certas experiências é benéfico e desejável. ''Ajuda na formação da fé em um mundo bom, em que as pessoas são confiáveis e vivem de forma fraterna. Esse background irá servir como um guia quando se deparar com a maldade e a traição'', diz. O que desorienta e desampara, como sempre, são os excessos. E mesmo nestes casos, ainda é possível um final feliz. ''É vivendo que aprendemos a viver. A experiência é até hoje o mais poderoso instrumento do aprendizado humano'', reforça Henriette.
Na escola Na rede de ensino, o caminho em busca de um sistema pedagógico capaz de formar seus alunos e não apenas informá-los, segue na direção oposta destes pais, ao colocar na mesma sala de aula crianças com experiências e valores diferentes. A idéia é espelhar o universo que vão encontrar na sociedade. Os conflitos aparecem não apenas entre os alunos, mas com a família e o entorno.
Para Edimara de Lima, diretora da Prima Escola Montesouri de São Paulo, que tem tradição neste caminho, a orientação de um psicoterapeuta pode diminuir muito o sofrimento e as dificuldades em lidar com as situações da vida moderna. ''A Carla Perez certamente conta com um quadro de profissionais altamente especializados para se manter jovem e bonita. Por que não buscar a orientação de especialistas para ajudar a cuidar da filha?, pergunta.
Henriette provoca ressaltando que nenhuma escola particular, por mais inclusiva que seja, tem em suas classes crianças vindas da Febem. ''E se exclui uma parcela da população, não é inclusiva'', diz. Para ela, o problema é muito maior que a escola ou o estilo de vida. ''A maior parte das crianças da Febem roubaram a primeira vez para consumir, instigadas pela propaganda massiva que tem a petulância e a insensatez de ditar o que somos, de onde viemos e para onde vamos'', diz. Os desejos destes meninos e meninas podem ser um tênis igual ao do ídolo rap, a bolsinha da Xuxa, a sainha da Carla Perez ou a droga que irá abrir o portal do poder. ''Eles pensam assim: besta é você que perde tempo e saúde trabalhando , mesmo que estejam naquela situação degradante de internos da Febem'', conta. n


