Quando Daniel começa a roer as unhas das mãos, difícil é fazê-lo parar. Não importa que elas já estejam curtíssimas e nada mais reste para roer ali: ele sempre acha uma última ‘‘lasquinha’’ que precisa, urgentemente, ser retirada pelos seus dentes ᖠ‘‘só mais um pouquinho’’, diz para si mesmo.
O problema é que esse ‘‘pouquinho’’ nunca acaba. O garoto, um paulistano de 13 anos, pode até parar de roer suas unhas por alguns instantes, mas volta ao ‘‘hábito’’ logo em seguida. Às vezes, o faz sem perceber, admite.
Estudante da 7ª série, Daniel Marcondes Geraissate não sabe exatamente por que tem essa mania. Mas acredita que, quando está nervoso, a vontade aumenta. ‘‘Se não fiz a lição ou tem prova na escola, sinto vontade de roer mais’’, observa.
O nervosismo e a ansiedade podem realmente ter ligação com o hábito de roer unhas. Mas isso é apenas uma parte da história. ‘‘Não há uma causa só para todo mundo’’, alerta a psicóloga Liliana Rios Oliveira Barreto, de Goiânia. ‘‘É como a dor de cabeça: o que a causa em mim não é o mesmo que a causa em outra pessoa’’, exemplifica.
Liliana salienta que há muitas pessoas que roem unha não porque estão nervosas, mas simplesmente porque é um hábito. Portanto, não adianta mesmo querer simplificar a resposta. ‘‘O ser humano é muito e maravilhosamente complexo, e a causa de roer unha é tão complexa quanto são diferentes os seres humanos’’, reitera.
Idade A psiquiatra e psicanalista Betty Liseta, professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concorda. Ela observa também que, em crianças novas, esse hábito pode ser normal. ‘‘Há um período em que elas têm um tique nervoso, pegam algumas ‘manias’. Mas, com o tempo, a criança acaba se corrigindo’’, explica.
Para Betty, essa ‘‘mania’’ merece atenção dos pais quando persiste por muitos anos – quanto mais velha for a criança, maior será a chance de que isso se torne realmente um problema.
Um dos maiores prejuízos que o hábito de roer unhas pode trazer está relacionado ao convívio social. Com o tempo, seja adulto ou criança, a pessoa sente vergonha por não conseguir conter-se ou por ter mãos de má aparência. ‘‘A vergonha deixa a pessoa mais ansiosa, e estabelece-se um ciclo vicioso. Ela pode ficar tímida, sentir-se inibida num relacionamento’’, ressalta Betty. ‘‘Pode virar um problema grave se ela se sentir inferiorizada’’, alerta.
Os problemas psicológicos não são as únicas consequências desse hábito. O pediatra Roberto Tobaldini, médico do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, e do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), alerta para os riscos à saúde. ‘‘Sob a unha, há uma grande concentração de colônias de bactérias que podem causar problemas como sinusite, otite e amigdalite. Às vezes, a criança tem repetidamente a doença por isso’’, afirma. ‘‘Em locais com condições de higiene precárias, o hábito está associado a verminoses, por causa da presença de ovos de vermes sob as unhas.’’
Ajuda O pediatra conta também que já diagnosticou, num caso extremo, um emaranhado de cinco centímetros de diâmetro no estômago de uma criança de 4 anos. Era formado por cabelos e unhas. ‘‘Eventualmente, crianças roem unha, comem cabelo e materiais sintéticos não digeríveis, como tampinha de caneta e borracha. Eles deveriam sair do jeito que entraram, mas, em grande quantidade, formam bolos que obstruem o aparelho digestivo’’, esclarece. A solução, para alguns casos, é a cirurgia.
Para resolver o problema – quando de fato for um problema (‘‘só se atrapalhar a vida rotineira ou se estiver machucando a pessoa’’, salienta Liliana) – a solução, é, antes de tudo, olhar para a pessoa e não apenas para as suas unhas. Deve-se tentar conhecê-la, saber o que a leva a roer unha, procurando sempre ir além da ‘‘ansiedade’’ – se não for possível fazer isso sozinho, vale procurar ajuda profissional.
Betty ressalta que não se deve menosprezar nem as causas nem o problema. ‘‘Certamente, não é por falta de vergonha na cara que a pessoa adquire um hábito assim’’, assinala, deixando claro que recriminar alguém que roa unha só pode agravar o problema. ‘‘Não é algo meramente educativo, que se conserte dizendo ‘isso está errado’. Muitas vezes, criticar só atrapalha. A pessoa pode voltar a agressividade contra ela mesma’’, observa.
Liliana também observa que os pais não devem ficar proibindo o filho de roer unha. Passar pimenta ou um ‘‘remédio’’ na unha da criança também está vetado. ‘‘Isso trabalha só o sintoma, não a causa. A criança pode, por exemplo, passar a ranger os dentes, ter dor de cabeça ou puxar os cabelos’’, alerta.
Com Luciana, 17 anos, irmã de Daniel, aconteceu algo parecido. Ela parou de roer as unhas há cerca de dois anos, quando começou a frequentar a manicure. Mas, de vez em quando, se pega raspando o esmalte – o que não a impede de reclamar quando o irmão começa a roer as unhas. ‘‘Sempre falo para ele parar. Me irrita, diz Luciana’’.

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