''Bati o carro 21 vezes porque dormi enquanto dirigia'', diz, cautelosa, a fotógrafa Maria Rita(*), 36 anos. Ela conta emocionada que em um dos acidentes colocou a vida dos filhos em risco. ''Cochilei e o carro caiu em um buraco'', lembra. Maria Rita também relata que o sono provocou inúmeros constrangimentos e confusões. ''Dormi durante a viagem de ida e volta de lua-de-mel e sempre entrava no ônibus errado'', lembra.
O problema de Maria Rita é uma doença chamada narcolepsia. Descrita pela primeira vez em 1888, tem como característica principal o sono excessivo diurno. A fotógrafa convive há 20 anos com o problema, mas até chegar ao diagnóstico viveu uma verdadeira via crucis de um especialista a outro. Ela explica que os médicos confundiam o sintoma do sono com outras patologias, como deficiência na glândula tireóide e anemia. ''Um psicólogo relacionou o sono a traumas de infância, um homeopata disse que a causa era a alimentação inadequada e para vários neurologistas o estresse era a causa de tudo'', lembra Maria Rita.
Esse distúrbio neurológico, desconhecido pela maioria da população, compromete a auto-estima dos pacientes e é responsável por inúmeros acidentes. O principal sintoma, ataque de sono incontrolável, na maioria das vezes é confundido com preguiça, cansaço e estresse.
Sono fora de hora Especialistas explicam que a narcolepsia é a intrusão do sono profundo (REM) no período em que o paciente está acordado. Segundo a neurologista Mônica Marcos de Souza, especializada em distúrbios do sono, o paciente dorme rápida e profundamente várias vezes durante o dia, comprometendo atividades cotidianas e profissionais.
A médica também alerta que a narcolepsia pode apresentar outros sintomas como alucinações, paralisia do sono, sono fragmentado e cataplexia, em que ocorre a perda do tônus muscular. ''São sintomas mais graves que podem estar associados ao excesso de sono e indicar, em conjunto, a doença'', diz.
Pesquisas recentes indicam que a doença tem origem na ausência ou redução da hipocretina (orexina) no cerébro. Esses estudos revelam um perfil auto-imune da doença, que seria responsável pela destruição dos neurônios produtores de hipocretina. ''Quase a totalidade dos narcolépticos também possuem antígenos específicos'', sentencia Mônica Souza.
As pessoas que sofrem desse mal apresentam episódios de sono (cochilos), durante o dia, com duração de um a dois minutos e podem chegar a uma hora. Em muitos casos, o comportamento é automático, estado em que o portador da doença realiza suas atividades em estado de sonolência, com a consciência comprometida. ''O indivíduo realiza tarefas cotidianas sem total consciência do seus atos, as ações são automáticas'', afirma Mônica
As consequências deste quadro clínico são a ocorrência de ferimentos, acidentes de trânsito e repercussões sociais negativas.
Sem cura A fotógrafa Maria Rita, que está há 20 anos com esses sintomas, conta que recebeu o diagnóstico correto há apenas dois meses e confessa que ainda resiste a sensação de ser 'diferente'. ''Me sinto envergonhada por não ser normal'', confidencia.
A narcolepsia é uma doença crônica, mas Maria Rita conta que com o tratamento (à base de anfetaminas e antidepressivos) apresentou melhoras. Ela já constatou um progresso de 50% na sua qualidade de vida. ''Minha pele melhorou, durmo com mais qualidade à noite e, apesar de algum sono, estou mais atenta'', comemora. Especialistas avaliam que a melhora, com uso de medicação e mudanças de hábitos, pode chegar até 80%, mas a doença não tem cura.
O empresário Carlos(*) 28 anos, de Londrina, confirma a dificuldade em obter o diagnóstico correto e lamenta a ausência de informações sobre o tema. Ele disse que conheceu a doença por meio de um programa jornalístico, mas que só confirmou suas suspeitas quando pesquisou na internet e encontrou um especialista. Carlos também revela que na adolescência sempre foi motivo de chacota na sala de aula e nas viagens. ''Era só entrar no carro, e eu já dormia''.
Ele explica que, além do sono, às vezes tem a sensação de que está ''operando no automático''. Carlos revela que muitas tarefas domésticas são feitas sem a devida atenção, por causa da sonolência. Porém, os principais danos causados pela doença, na avaliação do empresário, são a sensação de frustração, provocada pela dificuldade em realizar atividades simples como estudar, dirigir e até trabalhar, e a intolerância das pessoas que ridicularizam os narcolépticos. ''É vexatório expor a doença, ao mesmo tempo em que a rotina de quem sofre com ela também é constrangedora'', reconhece.


Diagnóstico

A narcolepsia é diagnosticada por meio de exames de polissonografia e teste de múltiplas latências, ambos realizados em clínicas especializadas. O primeiro através do monitoramento de uma noite de sono do paciente, com o objetivo identificar a presença do sono profundo (REM) no início do adormecimento. Já o teste de múltiplas latências se refere ao registro diurno de cinco cochilos de sono com intervalo de duas horas.
O tratamento visa melhorar a sonolência excessiva por meio de estimuladores do sistema nervoso central como anfetaminas, metilfenidato, pemoline, mazindol e antidepressivos. Segundo os especialistas, os portadores da doença geralemente evitam ambientes sociais e são orientados a não fazer trabalhos que exijam atenção e cuidado, como a profissão de motorista ou operador de máquinas pesadas.
O tratamento, além da prescrição de remédios, prevê a adoção de hábitos como cochilos durante o dia, horário constante para dormir, praticar esportes, evitar o álcool, a privação do sono e o alimentos ricos em carboidratos. Após o diagnóstico e a adoção destes hábitos, os pacientes podem apresentar melhoras de até 80%.


Outros distúrbios

O sono durante o dia não é exclusividade dos narcolépticos. E o excesso também pode ser provocado por privação do sono, hipersonia primária, movimentos anormais de pernas durante o sono, apnéia obstrutiva e remédios.
Privação do sono Horários inadequados ou sono não dormido durante a noite
Hipersonia primária Indivíduos que precisam de sono noturno prolongado
Pernas inquietas - Movimentos bruscos e excessivos das pernas durante o sono
Apnéia obstrutiva - Ronco com pausa respiratória durante o sono
Medicamentos Utilização de remédios que provocam alterações no ciclo de sono
Observação: O sono REM, em linhas gerais, é o sono mais profundo. Ele ocorre após os estágios 1 e 2 (sono leve) e 3 e 4 (sono profundo).

Serviço:
Outras informações sobre a doença podem ser obtidas nos sites:
www.skulapius.com.br
www.furtado.com.br
www.sleepnet.com.br

(*) Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados


A neurologista Mônica de Souza afirma que a narcolepsia pode apresentar outros sintomas associados ao excesso de sono e indicar, em conjunto, a doença. Na foto, a médica simula a preparação de paciente para a polissonografia

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