Assumindo o papel de mãe
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quinta-feira, 08 de agosto de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Como os mosqueteiros do clássico ''capa e espada'' de Alexandre Dumas, Fernando Augusto do Amaral, 41 anos, e seus três filhos André, 7 anos; Daniel, 8; e Lucas, 11 , vivem muito unidos e se protegem mutuamente. Formam uma família diferente, em que o pai, firme e disciplinador, atua igualmente como mãe e, nesse papel, é todo coração, valorizando o contato físico, o afago, como formas de demonstrar claramente o imenso afeto que os une.
Quando a separação ocorreu, há 4 anos e meio, ele não estava preparado para assumir sozinho os filhos. Porém, tinha uma certeza: não saberia viver sem eles. Felizmente, segundo conta, sua ex-esposa teve bastante consciência para perceber que as crianças teriam uma melhor estrutura ficando com o pai e o apoiou em sua briga na Justiça, que durou dois anos, para obter a guarda dos filhos.
Desde então, a vida de Fernando mudou. Como representante comercial de uma empresa de embalagens industriais, costumava viajar muito e não tinha horários rígidos. Com as novas responsabilidades, comenta, ''tive de organizar meu cotidiano de acordo com as necessidades das crianças''. Isso significou, entre outras coisas, abdicar da cervejinha com os amigos depois das seis, mudar da casa para um apartamento, que ficasse mais próximo da escola dos filhos, e diminuir o ritmo no trabalho, levando, sempre que possível, um dos meninos para acompanhá-lo em suas viagens comerciais.
''É natural'', diz Fernando, ''que os homens queiram liberdade quando se separam.'' Em seu caso, contudo, convicto de que ''o importante era o bem estar deles'', optou por aumentar a carga de responsabilidades, com prazer e vontade de acertar. E, de acordo com os filhos, acertou muito mais do que errou. ''Papai se sai bem'', afirma Daniel, o do meio, ''sempre pensa na gente para fazer as coisas''. ''Às vezes, ele fica bravo'', complementa André, o menor, ''quando a gente não faz a lição da escola ou espalha as coisas pela casa''.
Isso porque o paizão Fernando também sabe ser educador. ''Acredito que devemos impor limites'', argumenta. ''Os filhos precisam saber até onde podem ir''. Em paralelo, procura lhes passar os valores preciosos do respeito, do companheirismo e do relacionamento afetivo.
Para apoiá-lo em tarefa tão árdua, Fernando contou com o apoio inestimável de dona Vicentina, a empregada que conviveu com os meninos desde que eles eram bebês. Há quatro meses, contudo, teve de sair, por problema de doença. A ex-esposa que, como explicou Fernando para os filhos desde a separação, ''deixou de ser namorada do pai, mas continua a ser a mãe de vocês'', leva os meninos ao médico, ao dentista e dá apoio na escola, participando das reuniões de pais. ''Meus filhos têm liberdade de ir e vir entre as duas casas'', esclarece ainda. Eventualmente, quando sentem necessidade, até passam uma temporada com a mãe.
Como a vida continua, mesmo para pais separados, é inevitável que conversem muito sobre relacionamentos, namoros e namoradas. Os meninos torcem para que o pai encontre alguém. Mas Fernando confessa que, ao longo desses anos, teve poucas oportunidades de refazer sua vida amorosa, principalmente por causa de sua resistência. ''No início'', lembra, ''não queria nem saber de um novo relacionamento, estava traumatizado.'' Depois, tornou-se muito exigente e seletivo. Hoje, vê a questão de outra forma e sente-se mais disponível para uma troca afetiva. ''É quase uma necessidade'', ele reconhece.
Antes de tudo, no entanto, Fernando posiciona-se como pai. Quando olha para o passado, sente-se realizado por tudo o que fez. O único medo que teve, ao enfrentar essa situação difícil, foi o de não conseguir a guarda dos filhos. ''Por outro lado'', pondera, ''por nenhuma razão pensei um dia em desistir de ficar com eles''.


