Angela Raizer Barbosa
Quando o Japão abriu as portas, na década de 80, para receber milhares de trabalhadores brasileiros – filhos e netos de japoneses – não era possível imaginar a dimensão que essa volta às origens iria representar. Hoje existem naquele país cerca de 220 mil brasileiros, os chamados dekasseguis, o mesmo número de japoneses que imigrou para o Brasil em quase um século, a partir de 1908, quando eles começaram a chegar em massa ao País.
A diferença é que enquanto os orientais chegaram aqui com a família, tiveram filhos, netos e já estão na quinta geração, a maioria dos brasileiros imigrou sem as crianças, deixando-as no Brasil sob os cuidados de tios e avós. Essa ausência dos pais está repercutindo agora numa geração de adolescentes e pode estar criando sérios problemas emocionais. É o que revela um trabalho do médico pediatra e hebiatra Renato Moriya, que realizou durante 1 ano uma pesquisa com os filhos de dekasseguis que permaneceram em Londrina. O trabalho foi apresentado pelo médico em Curitiba na conclusão do curso de especialização em adolescência.
Agressividade e depressão Durante um ano, Moriya percorreu 67 colégios, aplicando testes em adolescentes de 10 a 20 anos, obtendo retorno de 2.666 descendentes de japoneses, dos quais 268 estão com a mãe, o pai ou ambos no Japão. Com os testes nas mãos, o médico centralizou sua pesquisa em 30 alunos com o pai e a mãe no Japão e que estão sob os cuidados dos avós. Desses, 60% estão separados dos pais há mais de 4 anos. Ao concluir a pesquisa, Moriya percebeu uma grande diversidade de situações vivenciadas pelos adolescentes, mas a grande maioria mostrou uma força interna muito grande para superar o drama da ausência, acreditando que ainda há possibilidade de ser feliz. Mesmo assim, 30% apresentaram comportamento agressivo e quase todos – 86,7% – se ressentem e querem a volta dos pais.
‘‘Em momentos de grande saudade, os adolescentes lembram dos pais, vêem fotos, choram, ficam deprimidos e procuram ocupar o pensamento com outras coisas’’, revela Renato Moriya. Apenas dois entrevistados mostraram interesse em se juntar ao pais no Japão. ‘‘Isso porque é muito difícil para o adolescente nikkey se adaptar à sociedade japonesa, principalmente por não saber falar o idioma’’, observa o médico. ‘‘A disciplina escolar é muito rígida e os brasileiros têm que que acompanhar o nível dos alunos japoneses da mesma idade. Quando não conseguem são discriminados e sofrem o ijime (maus-tratos), chegando a ser expulsos da escola. O ijime já faz parte da cultura oriental e é tolerado pelos japoneses, mas os brasileiros não suportam esse tipo de pressão’’, acrescenta ele.
Fragmentação Para Renato Moriya, esse movimento migratório tem trazido um impacto econômico positivo, porém, para os que ficaram ocasionou novas modalidades de vivência – separação de cônjuges, desaparecimento de familiares e, consequentemente, a desagregação familiar, ocasionando dificuldades brutais de relacionamento. Mas os maiores prejudicados são mesmo as crianças e os adolescentes, que ainda não estão prontos para sobreviver por seus próprios meios. ‘‘A adolescência, foco de estudo de minha pesquisa, por si só já é uma fase crítica no processo de desenvolvimento pessoal (ver box). Sem a presença dos pais, o problema se agrava sensivelmente’’, argumenta Moriya (ver box).
Na pesquisa, os adolescentes cuidados pelos avós admitiram dificuldades em se comunicar com eles. ‘‘Quando surgem dúvidas, os conselhos são buscados nos colegas, demonstrando que nesta fase o mundo está fora da família’’ . Os entrevistados revelaram que os avós são figuras importantes, mas na maioria das vezes não substituem os pais e não preenchem o vazio nem atenuam a dor da ausência e da solidão. ‘‘Os avós têm dificuldade em assumir o papel de autoridade. Apesar da responsabilidade, não podem exigir dos netos, pois não ocupam o lugar dos pais’’, argumenta Moriya. Na opinião dele, as consequências ou vantagens desse tipo de vivência somente poderão ser avaliadas no futuro, quando estes jovens constituírem suas próprias famílias.

mockup