As máquinas não falam, alguns médicos também não
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quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Reportagem Local 
''Como se pode criar um estatuto de humanidade se as pessoas não se olham no rosto?''. A frase é do filósofo francês Emmanuel Lèvinas, citada pelo médico cardiologista José Eduardo Siqueira, professor de bioética na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e defensor da linha que propõe a humanização da medicina.
O avanço tecnológico, ocorrido especialmente a partir da segunda metade do século 20, segundo ele, exerceu fascínio sobre o médico que passou a olhar o paciente através de aparelhos. O paciente, por sua vez, quer exames de última geração. Esse efeito, que José Eduardo classifica como ''fenômeno cultural'', atingiu não só a medicina mas toda a sociedade. ''A tecnologia substituiu a palavra, a interação das pessoas'', critica.
A conduta das consultas médicas, de acordo com o cardiologista, foi invertida. Primeiro pede-se o exame, depois se examina. A conversa ficou reduzida a quase nada. ''Confiamos nos exames e ficamos dependentes da tecnologia'', observa.
Com isso, perdeu-se também o modelo do médico de confiança. Tanto em clínicas como em hospitais, o indivíduo passa pela avaliação de um grande número de médicos e especialidades sem que haja um responsável por ela. Cometeu-se, segundo sua análise, o gravíssimo e irrefletido erro de aplicar na medicina o modelo cartesiano de ciência á dividir para conhecer. ''O ser humano transformou-se em pedaços, cada um cuida de um deles''.
Palavra mágica O estilo antigo da medicina, para o cardiologista, permitia diagnósticos mais precisos pois, na sua avaliação, 90% das análises vêm da conversa. ''O exame é o complemento do raciocínio''. Continuando seu pensamento, José Eduardo diz que o homem é um ser ''bio-psico-social-espiritual''. ''Não se enxerga o homem pela tecnologia, pois somos seres complexos e não uma fatia biológica''.
O cardiologista lembra outro pensador francês, Jean-Paul Sartre, que dizia que ''a palavra significa quase tudo para quem fala, mas ela é mágica para quem ouve''. Assim, a falta do relacionamento médico-paciente, para o cardiologista, explica o crescimento da medicina alternativa. ''O doente está à procura de alguém que converse com ele, e esse profissional faz isso''.
Uma parcela da culpa desse modelo tecnológico e até desumano da medicina, para José Eduardo, é do aparelho formador das faculdades que enriqueceu a formação técnica desprezando o relacionamento médico-paciente. ''Temos médicos com a 'cabeça cheia' de informações e não com 'cabeça bem-feita' aqueles que reconhecem o ser humano que está na frente dele''.
O cardiologista não se isenta da culpa e diz que estão fazendo um diagnóstico tardio da responsabilidade de sua geração que formou profissionais ''sobre os prumos da tecnologia''. Ele cita ainda a participação do capitalismo que criou um ''modelo perverso de sociedade, movida pelo lucro''.
Humanisno A saída, para ele, é o retorno ao humanismo, pois a tecnologia não está resolvendo e ainda é muito cara. Já há mudanças no processo formador, José Eduardo cita o novo currículo de medicina da UEL (veja matéria na página 12), e da famosa universidade americana Harvard, baseado no problema da sociedade, valorizando o psíquico e o social. ''Este é o momento de ensinar o médico a tratar pessoas que têm uma doença. Não dá para esperar algo de quem foi preparado para tratar doenças'', sentencia.
O governo, para o cardiologista, também mostra sensibilidade criando o programa Médico da Família. ''É esse o verdadeiro profissional, que percebe e que acolhe o outro''.
José Eduardo, como um profissional atento e que assistiu ao processo de ''desumanização'' da medicina, finaliza a conversa dando uma dica: ''Curar às vezes. Confortar e aliviar sempre!'' n


