Quando Pedrinho nasceu, em janeiro de 1986, o mundo estava ainda acordando para uma nova e revolucionária tecnologia biomolecular que, 16 anos depois, permitiria aos pais biológicos encontrarem seu filho perdido. Fazia menos de dois anos que Alec Jeffreys, um pesquisador britânico, desenvolvera o conceito da ''impressão de DNA'', pelo qual toda e qualquer pessoa é portadora de características genéticas individuais, tal qual sua impressão digital. A pesquisa, que começou com a comparação de genes humanos com os de um pedaço de carne de foca polar, transformou o DNA em prova irrefutável da identidade humana, capaz de unir famílias, condenar criminosos e salvar inocentes.
Cada ser humano, com exceção de gêmeos idênticos, é formado por uma sequência diferente de DNA, ou ácido desoxirribonucleico. Um cartão de visitas genético, pessoal e intransferível, inscrito em cada célula do organismo com um alfabeto de apenas quatro letras: A, T, C e G. Metade vem da mãe, metade do pai. A diferença entre quaisquer duas pessoas é minúscula, cerca de 0,1%, mas em um universo de 3 bilhões de letras químicas, há variações mais do que suficientes para todo mundo.
Prova incontestável O DNA permite identificar a paternidade da criança com mais de 99,99% de certeza, podendo chegar a 99,999999%, dependendo da tecnologia e da quantidade de DNA analisado. ''O exame menos confiável é extremamente confiável'', diz o especialista Sérgio Pena, presidente do Gene Centro de Genética Médica, que trouxe a técnica para o Brasil em 1988. A probabilidade não chega a 100%, segundo Pena, apenas por uma ''impossibilidade teórica''. ''Sempre pode haver outra pessoa no mundo com aquelas características.'' A prova de DNA, entretanto, é incontestável nos tribunais. Antes da impressão genética, a paternidade era determinada pela sorologia tradicional, com base nos tipos sanguíneos. ''Ainda funciona como exame eliminatório, mas não garante a paternidade'', diz a perita Norma Bonaccorso, do Instituto de Criminalística de São Paulo.
Apesar de sua complexidade, o exame de DNA hoje pode ser feito em menos de 24 horas, graças à tecnologia de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), que automatizou o processo a partir do fim da década de 80. O preço varia de R$ 600 a R$ 2 mil. Também é possível fazer a análise com quantidades ínfimas de material, até mesmo uma única célula. Nos EUA, um dos terroristas acusados do primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993, foi identificado com base em células deixadas no selo de uma carta.
Para um terço da população brasileira, que segundo o IBGE não tem paternidade registrada, o exame de DNA é uma importante ferramenta de dignidade social. Só o Instituto de Medicina Social e Criminologia de São Paulo (Imesc) realizou, nos últimos três anos, 28 mil testes de paternidade por solicitação judicial mais do que qualquer instituição na América Latina. São cerca de cem casos agendados por dia, com uma fila de espera de 11 meses. Os exames são gratuitos para famílias com renda de até cinco salários mínimos. ''É um direito da população, principalmente da mais carente'', diz o superintendente do Imesc, Sebastião André de Felice.
Doenças genéticas A esperança da geneticista Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma Humano, é estender esse mesmo direito aos portadores de doenças genéticas. Centenas de mutações já podem ser detectadas pelo exame de DNA, mas os testes não são cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Um exame de diagnóstico genético de distrofias musculares, por exemplo, custa entre R$ 200 e R$ 300. ''É caro se comparado a um teste de glicose ou urina, mas em termos de sua aplicação é irrisório'', afirma Mayana. Cientistas acreditam que quase todas as doenças possuem um componente genético além do ambiental, relacionado ao estilo de vida da pessoa. Algumas podem ser desencadeadas por apenas um gene, como a fibrose cística, outras são mais complexas, como o mal de Alzheimer, e envolvem vários genes.
O diagnóstico precoce, feito pelo DNA, é importante tanto para o tratamento preventivo quando possível como para o planejamento familiar, no caso de doenças hereditárias. Ayaka Suegama, de 56 anos, não sabia que era portadora da mutação da síndrome de Duchenne, uma forma de distrofia muscular, quando deu à luz uma filha e dois filhos. A mutação aparece nos dois sexos, mas a doença só se manifesta nos homens. Um dos meninos morreu recentemente, com 19 anos, e o outro, André, de 16, está preso a uma cadeira de rodas. ''Se soubesse que era portadora desde o início, teria planejado minha família com mais cuidado'', afirma Ayaka.
A filha, Patrícia, de 25 anos, fez um teste de DNA aos 13 e descobriu que não herdou a mutação. ''Se engravidar um dia, vou estar tranquila. Como convivo com a doença, não gostaria que meu filho passasse por isso.'' n

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