Não soltam as tiras. Não têm cheiro. Não deformam. Estão na passarela, no forró e no Planalto. Duram 2,6 mil quilômetros (já caminharam de Arapiraca, em Alagoas, ao Rio de Janeiro). As ‘‘legítimas’’ Havaianas, como dizia o Chico Anysio, são 100% brasileiras. Totalmente democráticas. Gostosas e insubstituíveis como um singelo feijãozinho com arroz. Quem não tem umazinha?
Para comemorar a virada do milênio e os 38 anos deste ícone nacional, a São Paulo Alpargatas está lançando o livro ‘‘Havaianas – As Legítimas’’ (Editora DBA, São Paulo), que estará à venda nas livrarias, até o fim deste mês, por R$ 60,00.
‘‘Estava na hora de contar a história de um dos poucos produtos genuinamente brasileiros, que transitam em todas as classes sociais, no masculino e no feminino, entre os pobres e os ricos. As Havaianas pertencem a todos os brasileiros, elas transcenderam o mundo da empresa’’, explica Rui Porto, diretor de Comunicação da São Paulo Alpargatas e coordenador do projeto junto a Paulo Lalli.
Com ensaio fotográfico de Rômulo Fialdini, crônicas de Fernando Sabino, Ivan Ângelo, João Ubaldo Ribeiro e Joyce Pascowitch, trabalhos dos artistas plásticos Guto Lacaz e Janete Musatti e texto da jornalista Maiá Mendonça, a edição é um show de brasilidade, digno da homenageada.
Alto-relevo Desde o fim dos anos 70, na Praia do Arpoador, no Rio de Janeiro os surfistas e suas gatinhas já vinham virando o solado para ficar com a sandália em tom monocromático, mas o modelo com sola e tiras na mesma tonalidade só foi entrar em fabricação em 1994, ganhando alto-relevo na tira, com o nome da marca, para driblar as imitações malcheirosas.
Inicialmente lançada em apenas quatro cores, hoje, para estar atrelada às tendências da moda, uma cartela de 13 cores é elaborada anualmente pelo departamento de estilo da Alpargatas com pesquisas junto ao consumidor, no bureau de estilo francês Promostyl e junto a empresas fabricantes de fios de moda praia, como Dupont, Lycra e Rhodia.
Mudanças Foi somente depois que viraram balzaquianas que as Havaianas sofreram as primeiras ‘‘plásticas’’. Até então elas sobreviveram, incólumes, no modelo tradicional, fiel às cores originais (preto, amarelo, azul claro e terracota). Essa última é, até hoje, a preferida do ’imortal’ João Ubaldo Ribeiro. No entanto, apesar de todas as sutis peripécias estilísticas, as Havaianas tradicionais (as mais baratas de todas: R$ 3, 00) ainda permanecem bem à frente das vendas: 70 milhões de pares/ano, que equivalem a 70% da produção. Em 1998, o País não levou a Copa do Mundo, mas ganhou o modelo Brasil e as edições limitadas.
Hoje a sandália tem várias linhas, entre elas, as Havaianas Clubes (de futebol), Surf, Top, 2000, Floral, Alamoana, e a Kids (a partir do tamanho 21), nicho em que a empresa ainda pretende investir.
A linha mais modal é a Fashion (R$ 12,00), que esse ano lançou as Havaianas Cristal, com uma pedrinha de cristal Swarovski na tira, modelo top de linha da produção (R$ 17,00), que segue a tendência glitter, prometendo abrilhantar o Verão 2000/01, conforme o último MorumbiFashion.
A São Paulo Alpargatas pretende lançar, já para o ano que vem, o tamanho 45/46 e incrementar a exportação do produto, que ainda é pequena, em torno de 2%, focando principalmente no segmento surfe do mercado americano, onde o povo chama esse tipo de sandália pelo (ridículo) onomatopaico ‘‘flip-flop’’.
Ícone brasileiro de mil e uma facetas, como bem explica Maiá Mendonça no simpático texto de apresentação, ‘‘as legítimas são sandálias e não chinelos... Chinelo é sapato velho e acalcanhoado...’’. Desde 1962, já foram fabricados 2,2 bilhões de pares. Se esses pares, em tamanho 37, fossem colocados em fila indiana, seria possível dar 25 voltas no planeta. As Havaianas são assunto digno de Universidade de Harvard, caso único no marketing brasileiro, patenteadas no coração (e nos pés) de todos nós. Do Oiapoque ao Chuí.•

mockup