As dores que vêm da boca
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2002
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Se você já passou por diversos especialistas, fez uma bateria de exames e aquela dor na cabeça, nas costas ou na nuca ainda persiste, a origem do problema pode estar onde você menos imagina: na boca. Existem cerca de 30 sintomas diferentes causados pelo mau posicionamento dos dentes e da arcada dentária. ''Problemas dentários aliados a fatores emocionais podem ocasionar dores na região da face, na nuca e nos ombros, além de cefaléia, irritabilidade e falta de concentração'', informa a dentista Eloah Coelho de Castilho, especialista em ortopedia funcional dos maxilares, um desmembramento da ortodontia que só recentemente foi reconhecida como especialidade, apesar de existir, no Brasil, há meio século. Eloah é presidente da Academia Brasileira de Fiosiopatologia Crânio-oro-cervical e diretora científica da Associação Paranaense de Ortopedia Maxilar/Regional Londrina.
Os sintomas da DTM, sigla de disfunção temporomandibular articulação que liga o crânio à mandíbula , incluem ainda dores perto de ouvido, zumbidos, náuseas, distúrbios visuais, dificuldade para mastigar, falar e até bocejar. O estresse, geralmente, é o fator desencadeante das dores, já que há uma tendência a concentrar na musculatura facial e, por consequência, nos dentes, boa parcela da tensão acumulada no dia-a-dia.
Uma das consequências desse acúmulo de estresse é o bruxismo, ato inconsciente de ranger ou apertar os dentes, principalmente à noite. Pessoas com mau posicionamento dentário podem ter bruxismo, mas as causas psicológicas são determinantes. ''Sempre que há um contato prematuro na superfície de encontro entre os dentes, o organismo recebe uma ordem para destrui-lo e, inconscientemente, fazemos esse movimento. Mas, recentemente, pesquisadores chegaram à conclusão que, sob stress, mesmo em oclusões harmoniosas a pessoa fabrica esse contato'', detalha a dentista.
O bruxismo pode acarretar um desgaste de 1 milímetro por ano nos dentes, que têm, em média, de 8 a 11 milímetros. ''Há ainda a parte interna, que sofre uma carga excessiva. ''O resultado são problemas periodontais e até a perda do dente'', avisa Eloah.
Apnéias do sono A articulação temporomandibular tem a mesma estrutura do joelho e do ombro. Ao colocar o dedo polegar perto do ouvido e abrir e fechar a boca, é possível sentir seu movimento. O equilíbrio desse encaixe depende, além do posicionamento correto dos dentes, de outros fatores. Podem interferir nessa conexão hábitos inadequados como mascar chicletes e roer as unhas, alterações hormonais, problemas de artrite reumatóide e traumas na face, ocasionados, por exemplo, em acidentes de carro.
Segundo Eloah, distúrbios maxilares também podem ser a causa de algumas apnéias do sono. Nesses casos, o maxilar se desenvolveu de forma irregular, sem deixar espaço para a língua se acomodar na boca. ''Quando a pessoa se deita, a mandíbula vai para trás e fecha as vias aéreas superiores'', explica a dentista.
A avaliação desses problemas acontece através de exames clínicos que detectam a má engrenagem dos dentes. A correção é feita com aparelho ortopédico funcional, que promove mudanças na estrutura óssea do paciente (os aparelhos ortodônticos atuam exclusivamente na movimentação dos dentes). ''A base da ortopedia funcional dos maxilares é o tratamento através de estímulos e não de força'', esclarece Eloah. No caso do bruxismo, o aparelho vai inibir a atividade muscular, protegendo os dentes do desgaste. Para cada tipo de problema, é feito, manualmente, um aparelho diferente, que geralmente é utilizado por, no mínimo, 16 horas, podendo ser retirado para comer e fazer a higiene.
De acordo com a dentista, nas disfunções temporomandibulares, ao mesmo tempo em que elimina os sintomas dolorosos, o aparelho corrige o posicionamento dos dentes. ''Em 15 dias, teoricamente, a dor tem que desaparecer. Para a correção, o tempo de tratamento, em média, é de um ano'', informa. Muitos casos de disfunções exigem tratamento multidisciplinar, com a participação do dentista, do fisioterapeuta e, às vezes, de um neurologista.
Também são tratados pela ortopedia funcional problemas de mordida (cruzada e aberta). ''A especialidade dá mais enfoque ao tratamento precoce. O profissional tem mais recursos para tratar crianças, entre três e seis anos de idade, sem a utilização de aparelhos'', observa Eloah. Muitas vezes, com uma simples aplicação de resina sobre os dentes da criança é possível impedir alterações mais complicadas no futuro. n


